Meus
irmãos e minhas irmãs, ao concluirmos o Ano Litúrgico, a Igreja nos reúne para
contemplar e adorar Aquele que é o sentido de todas as coisas: Jesus Cristo,
Rei do Universo. Mas é importante reconhecer desde o início que a realeza de
Cristo não se apoia na força, em privilégios ou em honras humanas. O Evangelho
deste domingo nos apresenta um Cristo que reina de modo desconcertante: pregado
numa cruz, humilhado e insultado, mas oferecendo ali mesmo o amor mais poderoso
que o mundo já viu. A liturgia nos convida a purificar a nossa visão de Deus e
permitir que Cristo reine verdadeiramente em nossas vidas, nas nossas
comunidades e na sociedade.
A
primeira leitura apresenta um momento decisivo da história de Israel: todas as
tribos se reúnem em Hebron para aclamar Davi como rei (2Sm 5,1-3). Elas
reconhecem que Davi era “osso e carne” do povo, aquele que caminhava com eles,
que sofria com eles e que os conduzia. Este reconhecimento da proximidade do
rei com seu povo antecipa o que se cumpre perfeitamente em Cristo. Ele é o Rei
que não governa à distância, mas assume nossa carne, nossa dor e nossa
história. Diferente de tantos líderes que abandonam seu povo quando surgem
dificuldades, Cristo permanece fiel até o fim. Seu governo é serviço, e sua
autoridade nasce da entrega total.
O
Salmo 121(122) nos faz rezar: “Que alegria, quando me disseram: vamos à casa
do Senhor!”. É a alegria do povo que se reconhece guiado por Deus e que
compreende que sua segurança não está nos poderes da terra, mas na presença do
Senhor no meio deles. O salmista contempla Jerusalém como cidade da unidade e
pede pela paz, pela justiça e pela fraternidade. Celebrar Cristo Rei é
justamente renovar esse desejo de que a paz e a justiça do Evangelho
transformem nossas relações e nossas comunidades. Não podemos celebrar Cristo
como Rei e, ao mesmo tempo, sustentar divisões, disputas, violências e
indiferenças dentro da própria Igreja ou na convivência social.
A
segunda leitura, da Carta aos Colossenses (Cl 1,12-20), nos oferece uma das
mais belas sínteses cristológicas de todo o Novo Testamento. São Paulo afirma
que Cristo é “a imagem do Deus invisível”, “o primogênito de toda a criação”,
aquele por quem “tudo foi criado”. E afirma ainda que Ele é “a cabeça do
corpo, que é a Igreja”, e que “nele tudo encontra consistência”. Aqui está
a chave para entendermos a solenidade de hoje: Cristo não reina a partir do
alto de um trono humano, mas a partir da cruz, onde reconciliou todas as coisas
“fazendo a paz pelo sangue da sua cruz”. Diante dessa declaração tão clara,
percebemos o quanto é insuficiente — e até contraditório — tratar a fé como
instrumento de poder, manipulação ou prestígio. Cristo reina servindo; reina
perdoando; reina reconciliando. Seu reinado não se impõe, transforma. Não
oprime, liberta. Não domina, cura.
E
quando chegamos ao Evangelho de Lucas (Lc 23,35-43), encontramos a cena mais
desconcertante da realeza de Jesus. Não há coroas de ouro, não há aplausos, não
há honras. Há zombaria, desprezo e crueldade. Os chefes do povo, os soldados e
um dos criminosos repetem a mesma provocação: “Salva-te a ti mesmo!”. É
a lógica do mundo: o verdadeiro rei, pensam eles, é aquele que desce da cruz,
que mostra força, que humilha seus inimigos. Mas Jesus não desce da cruz. Ele
não se salva a si mesmo, porque sua missão é salvar os outros. Na cruz, Ele
permanece fiel àquilo que sempre ensinou: “O Filho do Homem não veio para
ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc
10,45). Somente um rei absolutamente livre poderia amar até esse ponto.
E
é nesse cenário que surge a súplica humilde do “bom ladrão”: “Jesus,
lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”. É impressionante perceber
que, enquanto tantos olhavam para Jesus e só viam fracasso, aquele homem
condenado reconhece a realeza de Cristo no momento mais improvável. Ele vê o
que outros não veem: a cruz é o trono do Rei. E escuta de Jesus a promessa que
resume o coração do Evangelho: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. A
misericórdia é a porta do Reino. Não são nossos méritos, não são nossas obras,
não é a aparência de santidade. O Reino se abre para quem reconhece sua verdade
e entrega sua vida ao amor de Cristo.
Hoje,
celebramos também o Dia Nacional dos Leigos, e isso nos recorda que o Reino de
Cristo se manifesta no mundo através do testemunho dos batizados. São homens e
mulheres chamados a ser presença transformadora de Cristo nas famílias, no
trabalho, na política, na economia, na cultura. Não basta honrar Cristo com
palavras ou com devoções exteriores: Ele deseja reinar nas escolhas concretas,
na ética, na justiça, no cuidado com os pobres, na defesa da dignidade humana.
A fé cristã não é um adorno; é uma missão. O laicato é chamado a irradiar a luz
do Reino onde muitas vezes a Igreja, como instituição, não chega. É pelos
leigos que Cristo entra nos ambientes mais feridos pela violência, pela
corrupção, pela desigualdade e pela indiferença.
Ao
encerrarmos o Ano Litúrgico, a liturgia nos faz olhar novamente para a cruz. A
pergunta é direta e inescapável: quem reina verdadeiramente na nossa vida?
Cristo ou nossos medos, nossas vaidades, a busca por poder, a lógica do mundo?
Deixar Cristo reinar significa renunciar ao egoísmo, à violência, ao
ressentimento, e deixar que Sua Palavra seja critério das nossas decisões.
Significa estar disposto a amar quando isso custa, a perdoar quando isso fere o
orgulho, a reconciliar quando parecer mais fácil desistir.
Que
ao contemplarmos Cristo Rei crucificado, possamos também fazer a oração do bom
ladrão: “Jesus, lembra-te de mim”. E que, fortalecidos pela Eucaristia,
iniciemos o novo Ano Litúrgico com o coração disposto a viver sob o reinado do
amor, da verdade e da misericórdia. Que Nossa Senhora, Rainha e Mãe da Igreja,
nos conduza sempre ao seu Filho. E que o Espírito Santo renove em nós a coragem
de sermos testemunhas do Reino que não passa. Amém.
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Battisti
Arcebispo emérito de Maringá (PR)

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