O Advento marca o início do ano litúrgico e cria um clima espiritual único na vida da Igreja. Esse tempo desperta a consciência de que a fé cristã não vive da repetição, mas da expectativa viva: Cristo vem, e cada fiel precisa decidir de que forma deseja recebê-lo. O Advento funciona como uma porta aberta. Quem atravessa essa porta entra em um período de lucidez, exame interior e esperança concreta.
Esse
tempo litúrgico gira em torno de duas grandes chegadas de Cristo. A primeira
aponta para o futuro: a vinda gloriosa do Senhor no fim dos tempos. A liturgia
proclama essa verdade logo nas primeiras semanas e exige atitude firme: “Ficai
preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que menos pensais” (Mt
24,44). O Advento não permite acomodação. Ele corta o excesso de pressa, rompe
a distração e chama o coração de volta ao essencial. Cristo caminha em direção
ao seu povo, e cada pessoa escolhe entre vigilância e indiferença.
A
segunda chegada dirige o olhar para o Natal. A Igreja não celebra apenas um
fato passado; celebra a entrada de Deus na história humana, a proximidade de um
Deus que se fez criança e partilhou a nossa fragilidade. O Evangelho recorda a
antiga promessa: “A virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamarão com
o nome de Emanuel: Deus conosco” (Mt 1,23; cf. Is 7,14). Essa verdade
sustenta o Advento inteiro: Deus não observa a humanidade de longe; Ele decide
morar no meio de nós. Por isso, cada gesto do Advento precisa abrir espaço para
essa presença.
Vigilância
e conversão sustentam esse tempo litúrgico. A vigilância evita que a vida se
dissolva em rotina ou dispersão. A conversão purifica o coração e remove aquilo
que impede a chegada do Senhor. João Batista, grande figura do Advento, aponta
esse caminho com clareza: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas
veredas” (Mt 3,3). Quem leva essa palavra a sério abandona a indiferença e
reorganiza a própria vida com sobriedade, retidão e propósito. O Advento não
oferece teorias; ele exige escolhas concretas.
A
liturgia reforça esse processo ao usar a cor roxa, que não simboliza tristeza,
mas recolhimento interior. Essa sobriedade prepara o coração para uma alegria
mais profunda, diferente da euforia que ocupa as ruas nas semanas antes do
Natal. A alegria cristã nasce de um encontro, não de um estímulo passageiro. O
Advento protege essa verdade e conduz cada fiel a uma alegria que se sustenta
na fé.
O
silêncio e a espera fecunda também definem esse tempo. O mundo preenche todos
os espaços com ruído, urgência e excesso de informação. O Advento toma o rumo
oposto: ele incentiva a escuta. Deus fala na medida em que encontra espaço. Por
isso, a oração ganha força especial nesse período. Quem dedica tempo à Palavra
descobre um Deus que se aproxima de maneira discreta, e essa proximidade se
torna luz. O profeta Isaías expressa essa busca: “Vinde, caminhemos à luz do
Senhor” (Is 2,5). Caminhar à luz exige decisão interior e abandono das
sombras da dispersão.
O
Advento também cultiva a esperança cristã. Essa esperança não é sonho ingênuo
nem fuga da realidade. Ela nasce da certeza de que Deus intervém na história.
Por isso, a espiritualidade do Advento educa o coração para olhar o mundo com
realismo, mas sem ceder ao desânimo. A esperança se fortalece quando o fiel
percebe que a fidelidade de Deus permanece, mesmo quando tudo à volta parece
instável. O Advento reafirma diariamente: Deus vem — e a sua vinda sustenta a
vida.
Ao
longo dessas semanas, a Igreja avança com firmeza até o Natal. Não se trata de
um caminho sentimental, mas de uma preparação concreta. Cada fiel pode — e deve
— purificar intenções, fortalecer a caridade, buscar reconciliação, corrigir
rumos e organizar a vida espiritual. Cristo deseja encontrar um coração atento,
e o Advento oferece todas as condições para esse encontro acontecer de maneira
autêntica.
No
fim desse percurso, o Natal revela o fruto do Advento: a luz vence a escuridão,
a promessa se cumpre, Deus se faz próximo e transforma o coração humano por
dentro. Quem viveu o Advento com seriedade reconhece essa luz e encontra
alegria verdadeira.
O
Advento, portanto, não é apenas um tempo litúrgico; é um estilo de vida que
reacende a esperança, afina o olhar espiritual e prepara o coração para receber
Cristo com maturidade, verdade e gratidão. É o tempo em que Deus se aproxima —
e o tempo em que cada fiel decide caminhar ao encontro d’Ele.
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Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá - PR

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