A
Novena de Natal ocupa um lugar especial na piedade cristã, pois prepara o
coração dos fiéis para acolher, com maior profundidade, o mistério do Verbo que
se fez carne e veio habitar entre nós. Mais do que uma tradição, ela é um
caminho espiritual que introduz o cristão na atmosfera do Advento, fazendo-o,
dia após dia, aproximar-se do presépio com a vigilância, a sobriedade e a
esperança próprias deste tempo. Sua origem remonta às práticas devocionais que
antecediam a solenidade do Natal em várias regiões da Igreja, nas quais o povo,
sentindo a necessidade de rezar mais intensamente diante da grande festa da
Encarnação, reunia-se em torno da Palavra, da oração e da caridade fraterna.
Ainda hoje, nas famílias, nas comunidades e nos diversos grupos e pastorais, a
Novena continua sendo uma oportunidade privilegiada para colocar Cristo no
centro da espera natalina.
A
espiritualidade da Novena de Natal está profundamente ligada à pedagogia de
Deus que prepara Seu povo para acolher o Salvador. Assim como Israel esperou,
entre sombras e promessas, a vinda do Messias, também nós, a cada ano,
renovamos essa expectativa. A Novena nos ajuda a compreender que o Natal não é
um evento isolado nem uma simples celebração emocional, mas o cumprimento da
promessa divina e o início de uma nova fase da história da salvação. Por isso,
cada encontro da Novena nos conduz a uma etapa desse caminho, convidando-nos à
conversão, à escuta da Palavra, ao compromisso com os irmãos e ao desejo
sincero de configurar a vida à de Cristo.
Ao
rezar a Novena, somos lembrados de que a preparação para o Natal não pode ser
reduzida a enfeites, compras ou organização de festas. A verdadeira preparação
acontece no interior da alma, quando permitimos que Deus abra espaços em nós
para que a luz do presépio expulse as trevas do egoísmo, da indiferença e da
pressa que tantas vezes sufocam o espírito. Nesse sentido, a Novena é tempo de
silêncio fecundo, de discernimento, de retomada do caminho e de crescimento na
fé. Ela nos ensina que Jesus nasce não apenas em Belém, mas em cada pessoa que
se dispõe a acolhê-lo com humildade, simplicidade e abertura.
Outro
aspecto fundamental da Novena é seu caráter comunitário. Embora possa ser
rezada individualmente, ela encontra sua plenitude quando reúne famílias,
vizinhos, pastorais e comunidades inteiras em torno do mesmo propósito
espiritual. A comunhão, tão marcante na cena do presépio, manifesta-se também
nesses dias de oração. Maria, José, os pastores, os magos: todos se aproximam
de Cristo, e todos têm algo a ensinar. Da mesma forma, na vida comunitária,
cada pessoa traz seus dons, suas dores, suas histórias, e juntos aprendemos a
viver a fé não como uma experiência isolada, mas como um caminho partilhado. A
Novena de Natal é, portanto, também um exercício de caridade, de escuta
recíproca e de fraternidade concreta.
O
significado mais profundo da Novena está em conduzir-nos ao essencial:
reconhecer que Deus cumpre Suas promessas e se aproxima de nós com ternura e
misericórdia. Ela abre nossos olhos para o fato de que o Menino de Belém é o
Filho eterno do Pai, que quis assumir nossa condição para nos elevar à Sua vida
divina. Cada oração, cada canto, cada leitura nos educa nessa fé, ajudando-nos
a celebrar o Natal não apenas como memória, mas como atualização viva da
presença de Deus no meio do Seu povo. Quem vive intensamente a Novena
transforma o próprio coração em manjedoura, e o Natal passa a ser mais do que
uma data: torna-se um encontro renovado com Aquele que é o Príncipe da Paz.
Assim,
a Novena de Natal permanece como um instrumento precioso para a vida cristã.
Ela nos dá ritmo, nos ensina a esperar, nos educa no amor e nos prepara para
receber o Salvador com a mesma simplicidade dos pequenos de Belém. Em um mundo
marcado pela pressa, pela dispersão e pela superficialidade, a Novena nos
devolve ao essencial e nos faz caminhar com Maria e José rumo ao mistério da
Encarnação. Quem a realiza com fé percebe que cada dia é um passo rumo à luz
que não passa, e que, ao final desse caminho de nove dias, não encontramos
apenas um Menino envolto em faixas, mas o Deus vivo que assume nossa humanidade
para nos conduzir à plenitude da vida.
+Dom
Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá

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