Irmãos
e irmãs,
Celebramos
nesta noite santa o mistério central da nossa fé: o Verbo se fez carne e
habitou entre nós. A liturgia da Noite de Natal coloca-nos diante de um
acontecimento que transforma a história da humanidade e ilumina definitivamente
a vida de todos os povos: o nascimento de Jesus Cristo, o Filho eterno de Deus,
que entra no tempo para nos salvar.
Na
primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaías (Is 9,1-6), ouvimos o
anúncio de uma grande luz que resplandece sobre um povo que caminhava nas
trevas. Trata-se de uma profecia proclamada num contexto de sofrimento,
opressão e incerteza. O profeta anuncia que um menino nos foi dado, um filho
nos foi concedido, e que sobre seus ombros repousa o sinal da realeza. Ele
recebe títulos que só podem ser atribuídos a Deus: Conselheiro admirável, Deus
forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz. A promessa de Isaías encontra
nesta noite o seu pleno cumprimento: o Menino de Belém é a luz que dissipa as
trevas do pecado, do medo e da desesperança.
O
Salmo responsorial (Sl 95) convida toda a criação a exultar: “Hoje nasceu
para nós o Salvador”. Não se trata de uma alegria superficial ou
passageira, mas da alegria profunda que nasce da certeza de que Deus não nos
abandonou. Ele entrou na nossa história, assumiu a nossa condição humana e
caminha conosco. O Natal é, portanto, a festa da proximidade de Deus.
Na
segunda leitura, da Carta de São Paulo a Tito (Tt 2,11-14), o apóstolo afirma
que “a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação para todos os homens”.
Essa graça tem um rosto, um nome e uma história: Jesus Cristo. O Natal não é
apenas um acontecimento do passado; é uma força que transforma o presente e
orienta o futuro. A encarnação do Filho de Deus nos educa para renunciar ao
pecado e viver com justiça, piedade e sobriedade, enquanto aguardamos a
manifestação gloriosa do Senhor.
O
Evangelho segundo São Lucas (Lc 2,1-14) apresenta-nos a cena do nascimento de
Jesus com uma simplicidade desconcertante. O Salvador do mundo nasce fora de
casa, envolto em faixas e deitado numa manjedoura. Não nasce nos palácios, mas
na periferia; não é acolhido pelos poderosos, mas anunciado aos pastores,
homens simples e marginalizados. Assim, Deus revela a lógica do seu amor: Ele
se faz pequeno para nos alcançar, pobre para nos enriquecer, frágil para nos
salvar.
Os
anjos proclamam: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que
é o Cristo Senhor”. O sinal dado não é de poder, mas de humildade. A glória
de Deus manifesta-se na paz oferecida aos homens por Ele amados. Essa paz não é
ausência de conflitos, mas reconciliação profunda entre Deus e a humanidade.
Celebrar
o Natal é mais do que recordar um fato histórico; é acolher hoje o Cristo que
nasce para nós. É permitir que Ele encontre lugar em nossa vida, em nossas
escolhas, em nossas relações. O presépio nos questiona: há espaço para Deus em
nosso coração? Ou estamos tão ocupados, tão cheios de nós mesmos, que não
percebemos a sua presença?
Nesta
noite santa, somos convidados a fazer silêncio interior, como Maria; a obedecer
com confiança, como José; a caminhar com simplicidade, como os pastores. O
Natal nos chama à conversão, à esperança e ao compromisso com a vida nova que
Deus nos oferece.
Que
o Menino Deus, nascido em Belém, renove em nós a fé, fortaleça a esperança e
reacenda a caridade. Abramos as portas do coração para acolher Aquele que vem
como luz nas trevas, paz nas inquietações e salvação para toda a humanidade.
Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens por Ele amados. Amém.”
+Dom
Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá

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