Irmãos
e irmãs,
reunidos
nesta Vigília de Natal, a liturgia nos coloca à porta do grande mistério que
iremos celebrar: o Deus eterno entra na história humana. Antes de contemplarmos
o Menino na manjedoura, a Igreja nos convida a reler o caminho da promessa, da
espera e da fidelidade de Deus ao seu povo. O Natal não acontece de forma
repentina; ele é o desfecho de uma longa história de amor, de alianças e de
esperança.
Na
primeira leitura, do livro do profeta Isaías (Is 62,1-5), ouvimos um anúncio
carregado de ternura e esperança. Jerusalém, ferida pelo exílio e pela
humilhação, recebe a promessa de uma restauração plena. Deus afirma que não
ficará em silêncio enquanto a justiça não resplandecer como aurora. O profeta
utiliza imagens nupciais para expressar essa nova relação: o povo deixa de ser
chamado “Abandonado” e passa a ser chamado “Meu prazer está nela”.
Deus não desiste do seu povo; Ele o ama com um amor fiel, que transforma a
vergonha em alegria e a desolação em esperança. Essa promessa encontra sua
realização plena no Natal, quando o próprio Deus vem habitar no meio de nós.
Na
segunda leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos (At 13,16-17.22-25), São Paulo
faz uma releitura da história da salvação, mostrando que Deus sempre conduziu o
seu povo com fidelidade. Desde a eleição de Israel, passando por Davi, Deus
prepara o caminho para a vinda do Salvador. João Batista surge como o último
profeta dessa espera, aquele que prepara o povo para acolher o Messias. Paulo
deixa claro que Jesus não é um acontecimento isolado, mas o cumprimento de tudo
aquilo que Deus prometeu. O Natal, portanto, não é apenas uma data festiva, mas
a confirmação de que Deus age na história e cumpre a sua Palavra.
O
Evangelho segundo São Mateus (Mt 1,1-25) aprofunda esse mistério ao apresentar
a genealogia de Jesus e o anúncio do seu nascimento. Ao percorrer os nomes dos
antepassados, Mateus nos mostra que Deus entra numa história concreta, marcada
por limites, pecados e fragilidades. Jesus nasce de uma humanidade real, não
idealizada. O centro do relato, porém, está em José, homem justo, que se vê
diante de uma situação desconcertante. Diante do mistério que não compreende
plenamente, José escolhe a obediência da fé. Ao acolher Maria e dar o nome ao
Menino, ele assume sua missão no plano de Deus. O anjo revela o sentido
profundo daquele nascimento: “Ele será chamado Emanuel”, isto é, “Deus
conosco”. No Natal, Deus não apenas visita o seu povo; Ele permanece
conosco.
Celebrar
a Vigília de Natal é reconhecer que Deus continua entrando na nossa história
hoje. Assim como José, somos convidados a confiar, mesmo quando não entendemos
completamente os caminhos de Deus. Assim como Maria, somos chamados a acolher a
ação do Espírito em nossa vida. O Natal nos questiona: há espaço em nosso
coração para que Deus habite? Ou estamos tão ocupados com luzes, festas e
preocupações que não percebemos a presença silenciosa do Emanuel?
Nesta
noite santa, a liturgia nos recorda que a salvação não acontece sem a
cooperação humana. Deus vem, mas espera a nossa resposta. O Filho nasce para
nos libertar do pecado, da desesperança e da indiferença. Ele vem trazer a paz
verdadeira, aquela que nasce da reconciliação com Deus, com os irmãos e conosco
mesmos.
Que
esta Vigília de Natal renove em nós a fé e a esperança. Ao nos aproximarmos da
celebração do nascimento do Senhor, abramos o coração para acolher o Deus que
se faz pequeno por amor. Que, como Maria e José, saibamos dizer “sim” aos
projetos de Deus, permitindo que o Emanuel transforme a nossa vida, nossas
famílias e o nosso mundo. Amém.
+Dom
Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá

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