Ainda
estamos envoltos pela luz do Natal, contemplando a doçura do Menino Jesus na
manjedoura, quando a Liturgia da Igreja, de forma abrupta e corajosa, veste-se
de vermelho. No dia 28 de dezembro, celebramos os Santos Inocentes Mártires. É
um contraste chocante: três dias após celebrarmos o nascimento da Vida,
recordamos a morte violenta imposta às crianças de Belém e arredores pelo rei
Herodes.
O
Evangelho de Mateus nos conta que Herodes, cego pelo medo de perder seu poder
terreno para o recém-nascido "Rei dos Judeus", ordenou a execução de
todos os meninos com menos de dois anos. O choro de Raquel, chorando seus
filhos que já não existem, atravessou a história e chega aos nossos ouvidos
ainda hoje.
Celebrar
os Santos Inocentes não é apenas olhar para o passado com tristeza; é olhar
para o presente com responsabilidade. Quem são os "santos inocentes"
de hoje? Onde estão os novos "Herodes"?
Infelizmente,
a matança dos inocentes continua, muitas vezes de forma silenciosa e
"legalizada". Os inocentes de hoje são, primeiramente, aqueles que
ainda estão no ventre materno. O aborto é a face moderna e cruel daquela mesma
rejeição à vida que Herodes demonstrou. Sempre que o egoísmo, o conforto ou o
medo se sobrepõem ao direito sagrado de nascer, revivemos o drama de Belém.
Como cristãos, somos chamados a ser a voz desses que não têm voz, defendendo a
vida desde a concepção até o seu declínio natural.
Mas
os inocentes de hoje também são as crianças vítimas das guerras insensatas que
assolam o mundo, da fome que envergonha a humanidade e da violência doméstica.
São os pequenos que sofrem com o abuso, com o abandono e com a falta de
oportunidades. Cada criança que sofre é um reflexo daquele Menino Jesus que
teve que fugir para o Egito para sobreviver.
No
entanto, a festa de hoje não é sobre o desespero, mas sobre a esperança que
nasce da fé. A Igreja venera essas crianças como mártires — "flores
martyrum" — as primeiras flores brotadas no jardim do Salvador. Elas não
falaram, mas testemunharam Cristo com o próprio sangue. Elas nos lembram que a
vida humana é sagrada e pertence a Deus.
Neste
tempo do Natal, ao olharmos para o Menino Deus, renovemos o nosso compromisso
com a Cultura da Vida. Que não sejamos indiferentes ao choro das
"Raquéis" modernas. Que possamos trabalhar para construir uma
sociedade onde nenhuma criança seja vista como uma ameaça ou um estorvo, mas
como um dom precioso do Criador.
Rezemos
pelas crianças que não puderam nascer, pelas que nasceram em meio à miséria e
pelas que sofrem a violência dos adultos. Que os Santos Inocentes intercedam
por nós e despertem em nossos corações a coragem de proteger os pequeninos,
seguindo o exemplo de São José, o guardião da vida.
A
todos, a minha bênção e o desejo de que a luz de Cristo vença todas as sombras
de morte.
+Dom
Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá

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