No
início do caminho quaresmal, a liturgia convida-nos a repensar as nossas
certezas, as nossas opções e os nossos valores. Tempo de conversão e de
renovação, a Quaresma é o momento favorável para nos reaproximarmos de Deus. É
em Deus – e não noutras propostas, por mais encantadoras que sejam – que está a
fonte da vida verdadeira.
Na
primeira leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7), a catequese de Israel esboça, em grandes
linhas, o projeto de Deus para o mundo e para o ser humano. Deus criou-nos para
a felicidade e mostrou-nos como viver para alcançar a vida verdadeira. Contudo,
enquanto seres livres, temos de fazer a nossa opção fundamental. Se decidirmos
abraçar as indicações de Deus, conheceremos uma felicidade sem limites e uma
plena realização; mas, se optarmos por dar ouvidos à tentação do egoísmo, da
autossuficiência, da prepotência e da ganância, viveremos rodeados de coisas
efémeras e vazias, que nunca saciarão plenamente a nossa sede de felicidade.
Deus modelou o ser humano a partir do solo e soprou-lhe o dom da vida. Deu-lhe
um jardim onde pudesse viver em harmonia com toda a criação. Com a adesão
humana às propostas da serpente, tudo muda: a ambição destrói a harmonia e
provoca conflito e medo.
Na
segunda leitura (Rm 5,12-19), o apóstolo Paulo coloca diante de nós dois
exemplos, dois modelos de vida: Adão e Jesus. Adão representa o homem que optou
por ignorar as propostas de Deus e decidir, por si próprio, os caminhos que
deveria percorrer para se realizar plenamente. Ele simboliza a fraqueza humana
marcada pelo pecado e destinada à morte. Jesus é o novo Adão: é o homem que
decidiu escutar as indicações de Deus, obedecer aos seus desígnios e percorrer
o caminho que o Pai Lhe indicava, mesmo que esse caminho passasse pela cruz. A
desobediência de Adão trouxe ao mundo egoísmo, sofrimento e morte; a obediência
de Jesus tornou-se, para todos, fonte inesgotável de amor, de graça e de vida.
Jesus vence a morte para oferecer a todos a comunhão com Deus.
No
Evangelho (Mt 4,1-11), o evangelista Mateus propõe-nos uma catequese sobre as
opções de Jesus. Ele recusou sempre as propostas e os valores que punham em
causa o projeto de Deus para o mundo e para a humanidade. Para Jesus, os
valores de Deus tiveram sempre primazia sobre os bens materiais, sobre a
embriaguez do êxito fácil e sobre a sede de poder. Aos seus discípulos, Jesus
pede que sigam um caminho semelhante. No deserto, iluminado pela Palavra de
Deus, Ele vence as tentações do adversário, o demônio. Ensina-nos, assim, como
vencer as propostas enganadoras da sociedade moderna: superar a tentação de
reduzir tudo à satisfação imediata das necessidades materiais; rejeitar o uso
mágico da religião e de Deus; resistir à ambição do poder e do domínio.
Satanás
recorre ao título “Filho de Deus” na tentativa de afastar Jesus da sua missão,
propondo-lhe que realize prodígios em benefício próprio e faça concessões ao
mal: transformar pedras em pão para saciar a fome; lançar-se do alto do templo
para ser amparado pelos anjos; adorar o diabo para obter domínio sobre o mundo.
A abundância de bens, o sucesso e a idolatria continuam a ser tentações
constantes.
Mediante
a tríplice tentação, neste itinerário quaresmal, Satanás procura desviar Jesus
– e, por analogia, cada um de nós – do caminho do serviço e conduzi-lo pelo
falso atalho do sucesso e da glória. Jesus, porém, protege-se prontamente das
investidas do maligno com o escudo da Palavra de Deus. Às propostas do diabo,
responde: “Está escrito...”. Como recordava o Papa Francisco, “com o diabo não
se dialoga”.
Também
nós somos chamados a vencer as tentações com a Palavra de Deus. Precisamos
rejeitar os discursos de ódio que se espalham pelas redes sociais, evitar a
competição desmedida e combater a indiferença diante do clamor dos descartados
que pedem vida digna. Devemos assumir as atitudes de Jesus: humildade,
obediência, firmeza e docilidade ao Espírito Santo.
A
conversão diária passa pela fidelidade a Cristo, ao seu Evangelho e à Igreja.
Escutando a Palavra de Deus, perseverando na oração, praticando a esmola
solidária e partilhando os dons e os bens que possuímos, reafirmamos o
compromisso cristão com a justiça e o amor ao próximo. Nunca nos afastemos dos
caminhos do bem. A obediência à Palavra de Deus forma em nós um espírito
decidido a adorar somente o Senhor e a vencer as forças do mal.
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR
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