Irmãos e irmãs, depois de iniciar a Quaresma com o sinal austero das cinzas, a Igreja nos conduz imediatamente ao deserto. O Evangelho afirma: “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4,1). Não é o acaso que leva Jesus ao deserto; é o próprio Espírito. Isso significa que a Quaresma não é um tempo de fuga da vida, mas um caminho espiritual necessário para purificar o coração.
O
deserto, na Bíblia, é lugar de prova e também de encontro com Deus. Foi no
deserto que Israel aprendeu a confiar no Senhor. Agora, Jesus revive essa
experiência, mas de modo perfeito. Onde o antigo povo caiu, Cristo permanece
fiel.
A
primeira leitura – Gn 2,7-9; 3,1-7 – mostra justamente o drama da humanidade:
Adão e Eva escutam a voz da serpente e desconfiam de Deus. A tentação começa
com uma distorção da verdade: “É verdade que Deus vos proibiu comer de toda
árvore do jardim?” (Gn 3,1). O mal sempre começa assim, sem negar Deus
diretamente, mas insinuando que Ele limita nossa felicidade. O pecado nasce
quando o ser humano acredita que pode construir a própria vida sem Deus.
São
Paulo – Rm 5,12-19 – explica esse contraste na segunda leitura: “Por um só
homem entrou o pecado no mundo” (Rm 5,12), mas também afirma que “pela
obediência de um só, todos se tornarão justos” (Rm 5,19). Cristo é o novo
Adão. Ele refaz o caminho humano, vencendo exatamente onde a humanidade
fracassou: na confiança em Deus.
No
Evangelho – Mt 4,1-11 – vemos três tentações que, na verdade, resumem todas as
tentações humanas.
A
primeira é transformar pedras em pão. O tentador diz: “Se és Filho de Deus,
manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3). Não é apenas fome
física; é a tentação de viver apenas do material, de reduzir a vida às
necessidades imediatas. Jesus responde com a Escritura: “Não só de pão vive
o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). O ser
humano perde o sentido da vida quando esquece sua dimensão espiritual.
A
segunda tentação acontece no alto do Templo: “Atira-te daqui abaixo” (Mt
4,6). É a tentação de usar Deus para proveito próprio, de exigir sinais, de
querer uma fé baseada em espetáculos e garantias. Jesus responde: “Não
tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4,7). A verdadeira fé não manipula Deus;
confia nele mesmo no silêncio.
A
terceira tentação mostra todos os reinos do mundo: “Tudo isso te darei, se
te prostrares diante de mim” (Mt 4,9). Aqui aparece a sedução do poder, do
domínio e da glória fácil. É a tentação de alcançar bons fins por caminhos
errados. Cristo responde com firmeza: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a
Ele servirás” (Mt 4,10). Nada pode ocupar o lugar de Deus no coração
humano.
Percebemos
então que Jesus vence não com força extraordinária, mas com fidelidade à
Palavra. Ele combate o mal apoiado nas Escrituras. Isso ensina algo fundamental
para nossa Quaresma: não vencemos as tentações apenas com esforço pessoal, mas
permanecendo unidos a Deus.
A
Quaresma é o nosso deserto espiritual. Todos enfrentamos tentações semelhantes:
viver só para o consumo, buscar reconhecimento a qualquer custo, colocar
segurança no poder, no dinheiro ou na aparência. O Evangelho mostra que o
verdadeiro combate acontece dentro do coração.
O
detalhe importante é que Jesus não dialoga longamente com a tentação. Ele
responde com a Palavra e permanece firme. Muitas quedas espirituais começam
quando começamos a negociar interiormente com aquilo que sabemos que não vem de
Deus.
Ao
final do Evangelho, lemos: “Então o diabo o deixou, e os anjos
aproximaram-se e o serviram” (Mt 4,11). A vitória espiritual não elimina o
combate, mas traz paz interior. Quem permanece fiel experimenta a consolação de
Deus.
Este
primeiro domingo da Quaresma nos convida a perguntar: onde está nossa maior
tentação hoje? O que tenta ocupar o lugar de Deus em nossa vida? A Quaresma não
é apenas renunciar a algo exterior, mas reorganizar o coração.
Cristo
entrou no deserto para caminhar conosco. Ele conhece nossas fraquezas e nos
ensina que a fidelidade é possível. Unidos a Ele, também podemos vencer,
porque, como afirma São Paulo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça”
(Rm 5,20).
Que
este tempo quaresmal nos ajude a fortalecer a oração, redescobrir a Palavra de
Deus e confiar mais profundamente no Senhor, para que, caminhando com Cristo no
combate espiritual, possamos chegar renovados à alegria da Páscoa. Amém.
Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR
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