Irmãos e irmãs, ao celebrarmos a Solenidade da Anunciação do
Senhor, contemplamos um dos momentos mais decisivos da história da
salvação: o instante em que o Verbo se faz carne no seio da Virgem Maria
(cf. Lc 1,26-38). Aqui não estamos apenas diante de um anúncio, mas do
início concreto da redenção. Deus entra na história humana não por
imposição, mas pedindo consentimento. A salvação passa pela liberdade de
uma mulher.
O Evangelho de São Lucas nos apresenta o diálogo entre o anjo
Gabriel e Maria. O anjo saúda: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está
contigo” (Lc 1,28). Esta saudação não é apenas uma forma de
cumprimento, mas uma revelação: Maria é a “cheia de graça”, aquela que
foi plenamente agraciada por Deus. Nela, a humanidade encontra a sua
forma mais pura de abertura ao divino.
Diante dessa saudação, Maria se perturba. O Evangelho diz que ela
“ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o
significado da saudação” (Lc 1,29). Essa perturbação não é falta de fé, mas
expressão de humildade. Quem se sabe pequeno diante de Deus não
presume compreender imediatamente seus desígnios.
O anjo então revela o plano: “Conceberás e darás à luz um filho, e
lhe porás o nome de Jesus” (Lc 1,31). Trata-se do cumprimento das
promessas feitas a Israel. O menino será “grande”, “Filho do Altíssimo” e
seu reino não terá fim (cf. Lc 1,32-33). Aqui se cumpre toda a expectativa
messiânica.
Maria, porém, faz uma pergunta: “Como acontecerá isso, se eu não
conheço homem?” (Lc 1,34). Essa pergunta é essencial. Maria não duvida,
como Zacarias duvidou (cf. Lc 1,18), mas busca compreender como
colaborar com o plano de Deus. A fé verdadeira não é cega; ela busca
entendimento, sem perder a confiança.
A resposta do anjo revela o mistério trinitário da encarnação: “O
Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua
sombra” (Lc 1,35). O mesmo Espírito que pairava sobre as águas na
criação (cf. Gn 1,2) agora realiza uma nova criação. Em Maria, Deus
inaugura um novo começo para a humanidade.
E então chegamos ao ponto central: o “sim” de Maria. “Eis aqui a
serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Este é
o ato mais decisivo da história humana. Deus quis precisar da liberdade de
Maria. Santo Agostinho dirá que Aquele que criou Maria sem ela, não quis
salvá-la sem ela.
Esse “sim” não é um gesto romântico ou fácil. É um ato de entrega
total, que implica risco, incompreensão e sofrimento. Ao aceitar a vontade
de Deus, Maria aceita também o caminho da cruz. O “fiat” da Anunciação
encontra sua plenitude no silêncio do Calvário.
A segunda leitura (Hb 10,4-10) ilumina ainda mais esse mistério ao
colocar nos lábios de Cristo as palavras do Salmo: “Eis que venho para
fazer a tua vontade” (Hb 10,7). O “sim” de Maria encontra eco no “sim”
do próprio Cristo. Ambos se unem em um único movimento de obediência
ao Pai. A encarnação já aponta para a redenção.
Já a primeira leitura (Is 7,10-14) apresenta o sinal dado a Acaz: “Eis
que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de
Emanuel” (Is 7,14). Aquilo que era promessa torna-se realidade em Maria.
Deus é, de fato, o “Deus conosco”.
Essa solenidade nos interpela profundamente. Vivemos em um
mundo que valoriza a autonomia absoluta e rejeita qualquer forma de
obediência. O “sim” de Maria confronta essa mentalidade. Ele nos ensina
que a verdadeira liberdade não está em fazer a própria vontade, mas em
aderir plenamente à vontade de Deus.
Quantas vezes também nós somos chamados a dizer “sim” em
situações que não compreendemos totalmente! Quantas vezes Deus entra
em nossa vida de forma inesperada, desinstalando nossos planos! A atitude
de Maria nos mostra o caminho: confiança, humildade e disponibilidade.
Celebrar a Anunciação é reconhecer que Deus continua a pedir
permissão para agir em nossa vida. Ele não invade, Ele propõe. Cabe a
cada um de nós responder.
À luz deste mistério, somos convidados a transformar o nosso
cotidiano em um espaço de encarnação da Palavra. Cada vez que
acolhemos a vontade de Deus, cada vez que escolhemos amar, servir e
obedecer, Cristo continua a nascer no mundo. Que possamos, como Maria,
dizer com verdade: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Pois é nesse
“sim” que Deus realiza, também em nós, a sua obra de salvação.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
Anunciação, Fra Angélico (c. 1395–1455).
Acervo do Museu Nacional de São Marcos, em Florença, Itália.
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