Pular para o conteúdo principal

Quem sou eu

Minha foto
Dom Anuar Batisti
Formado em filosofia no Paraná e em teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, Dom Anuar Battisti é Arcebispo Emérito de Maringá (PR). Em 15 de abril de 1998, por escolha do papa João Paulo II, foi nomeado bispo diocesano de Toledo, sendo empossado no mesmo dia da ordenação episcopal, em 20 de junho daquele ano. Em 2009 recebeu o título de Doutor Honoris Causa, um dos mais importantes, concedidos pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Em 2007, foi presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Sagrada, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 2015, foi membro do Conselho Administrativo da Pastoral da Criança Internacional e, ainda na CNBB, foi delegado suplente. No Conselho Episcopal Latino-Americano atuou como Presidente do Departamento das Vocações e Ministérios, até 2019.

Anunciação do Senhor

 Irmãos e irmãs, ao celebrarmos a Solenidade da Anunciação do

Senhor, contemplamos um dos momentos mais decisivos da história da

salvação: o instante em que o Verbo se faz carne no seio da Virgem Maria

(cf. Lc 1,26-38). Aqui não estamos apenas diante de um anúncio, mas do

início concreto da redenção. Deus entra na história humana não por

imposição, mas pedindo consentimento. A salvação passa pela liberdade de

uma mulher.

O Evangelho de São Lucas nos apresenta o diálogo entre o anjo

Gabriel e Maria. O anjo saúda: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está

contigo” (Lc 1,28). Esta saudação não é apenas uma forma de

cumprimento, mas uma revelação: Maria é a “cheia de graça”, aquela que

foi plenamente agraciada por Deus. Nela, a humanidade encontra a sua

forma mais pura de abertura ao divino.

Diante dessa saudação, Maria se perturba. O Evangelho diz que ela

“ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o

significado da saudação” (Lc 1,29). Essa perturbação não é falta de fé, mas

expressão de humildade. Quem se sabe pequeno diante de Deus não

presume compreender imediatamente seus desígnios.

O anjo então revela o plano: “Conceberás e darás à luz um filho, e

lhe porás o nome de Jesus” (Lc 1,31). Trata-se do cumprimento das

promessas feitas a Israel. O menino será “grande”, “Filho do Altíssimo” e

seu reino não terá fim (cf. Lc 1,32-33). Aqui se cumpre toda a expectativa

messiânica.

Maria, porém, faz uma pergunta: “Como acontecerá isso, se eu não

conheço homem?” (Lc 1,34). Essa pergunta é essencial. Maria não duvida,

como Zacarias duvidou (cf. Lc 1,18), mas busca compreender como

colaborar com o plano de Deus. A fé verdadeira não é cega; ela busca

entendimento, sem perder a confiança.

A resposta do anjo revela o mistério trinitário da encarnação: “O

Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua

sombra” (Lc 1,35). O mesmo Espírito que pairava sobre as águas na

criação (cf. Gn 1,2) agora realiza uma nova criação. Em Maria, Deus

inaugura um novo começo para a humanidade.

E então chegamos ao ponto central: o “sim” de Maria. “Eis aqui a

serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Este é

o ato mais decisivo da história humana. Deus quis precisar da liberdade de

Maria. Santo Agostinho dirá que Aquele que criou Maria sem ela, não quis

salvá-la sem ela.

Esse “sim” não é um gesto romântico ou fácil. É um ato de entrega

total, que implica risco, incompreensão e sofrimento. Ao aceitar a vontade

de Deus, Maria aceita também o caminho da cruz. O “fiat” da Anunciação

encontra sua plenitude no silêncio do Calvário.

A segunda leitura (Hb 10,4-10) ilumina ainda mais esse mistério ao

colocar nos lábios de Cristo as palavras do Salmo: “Eis que venho para

fazer a tua vontade” (Hb 10,7). O “sim” de Maria encontra eco no “sim”

do próprio Cristo. Ambos se unem em um único movimento de obediência

ao Pai. A encarnação já aponta para a redenção.

Já a primeira leitura (Is 7,10-14) apresenta o sinal dado a Acaz: “Eis

que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de

Emanuel” (Is 7,14). Aquilo que era promessa torna-se realidade em Maria.

Deus é, de fato, o “Deus conosco”.

Essa solenidade nos interpela profundamente. Vivemos em um

mundo que valoriza a autonomia absoluta e rejeita qualquer forma de

obediência. O “sim” de Maria confronta essa mentalidade. Ele nos ensina

que a verdadeira liberdade não está em fazer a própria vontade, mas em

aderir plenamente à vontade de Deus.

Quantas vezes também nós somos chamados a dizer “sim” em

situações que não compreendemos totalmente! Quantas vezes Deus entra

em nossa vida de forma inesperada, desinstalando nossos planos! A atitude

de Maria nos mostra o caminho: confiança, humildade e disponibilidade.

Celebrar a Anunciação é reconhecer que Deus continua a pedir

permissão para agir em nossa vida. Ele não invade, Ele propõe. Cabe a

cada um de nós responder.

À luz deste mistério, somos convidados a transformar o nosso

cotidiano em um espaço de encarnação da Palavra. Cada vez que

acolhemos a vontade de Deus, cada vez que escolhemos amar, servir e

obedecer, Cristo continua a nascer no mundo. Que possamos, como Maria,

dizer com verdade: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Pois é nesse

“sim” que Deus realiza, também em nós, a sua obra de salvação.


+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)


Crédito da imagem:
Anunciação, Fra Angélico (c. 1395–1455).
Acervo do Museu Nacional de São Marcos, em Florença, Itália.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vinde Espírito Santo!

A Solenidade de Pentecostes a liturgia convida-nos a olhar para o Espírito Santo e a tomar consciência da sua ação na Igreja e no mundo. Fonte inesgotável de Vida, o Espírito, transforma, renova, orienta, anima, fortalece, constrói comunidade, fomenta a unidade, transmite aos discípulos a força de se assumirem como arautos do Evangelho de Jesus. Cinquenta dias após a Ressurreição de Jesus, celebramos a Solenidade de Pentecostes, a vinda do Espírito Santo, o dom pascal por excelência. Assim como Maria e os Apóstolos, reunidos no Cenáculo, receberam o dom do Espíritos Santo, também nós, na mesma fé e na mesma esperança, estamos celebrando o dom do amor de Deus, recordando o dia em que o Espírito Santo foi derramado sobre a Igreja nascente. O Mistério Pascal chega à sua plenitude com a vinda do Espírito Santo, que une todas as línguas, raças e povos, impulsionando-nos a viver o amor verdadeiro. O Evangelho – Jo 20,19-23 – apresenta-nos a comunidade da Nova Aliança reunida à volta de Jesus...

Homilia – Solenidade de Corpus Christi

  Amados irmãos e irmãs, Hoje celebramos a Solenidade de Corpus Christi, o mistério sublime da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. E no Ano C da liturgia, a Palavra de Deus nos convida a compreender este mistério a partir de três dimensões: sacrifício, alimento e partilha. Na primeira leitura – Gn 14,18-20 –, o misterioso rei-sacerdote Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão. Esse gesto, tão breve e simbólico, ecoa fortemente no Novo Testamento. Melquisedec aparece como figura de Cristo, o verdadeiro Sacerdote Eterno, que na Última Ceia oferece o seu corpo e o seu sangue sob as espécies do pão e do vinho. O salmo reafirma: “Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109,4). Desde os primórdios, Deus já preparava, na história do povo, os sinais do que seria o dom da Eucaristia. A segunda leitura – 1Cor 11,23-26 –, da Primeira Carta aos Coríntios, nos remete ao momento mais sagrado da fé cristã: “Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei i...

Pentecostes: o Espírito Santo e o nascimento da Igreja

 O Domingo de Pentecostes encerra o Tempo Pascal com um dos momentos mais marcantes da história da salvação: a vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos e Maria no Cenáculo. Esse acontecimento, narrado em Atos 2, é muito mais que um episódio isolado — é o ponto de partida da missão da Igreja no mundo. Antes de subir ao céu, Jesus prometeu que enviaria o Espírito Santo, o Defensor, que haveria de conduzir seus discípulos à verdade plena (cf. Jo 14,16-17). No dia de Pentecostes — palavra que significa “quinquagésimo”, pois ocorre cinquenta dias após a Páscoa — essa promessa se cumpre: o Espírito é derramado como fogo e vento, símbolo de força, renovação e purificação. Os discípulos, antes medrosos e fechados, são transformados em anunciadores corajosos do Evangelho. Pedro, que negara Jesus, agora o proclama com ousadia diante de uma multidão. Um novo tempo se inaugura: o tempo da Igreja conduzida pelo Espírito. Com o Espírito Santo, nasce a Igreja missionária. O dom da...