A solenidade da Anunciação do Senhor é a celebração do
grande mistério cristão da Encarnação do Verbo de Deus. A data de 25 de março
está em função do nascimento de Jesus, que é celebrado exatamente nove meses depois.
A catequese sempre fez coincidir a Anunciação e a Encarnação. Esses mistérios
começaram a ser celebrados liturgicamente, provavelmente, após a edificação da
basílica constantiniana sobre a casa de Maria, em Nazaré, no século IV. A
celebração, tanto no Oriente quanto no Ocidente, data do século VII. Durante
séculos, essa solenidade teve sobretudo caráter mariano. Contudo, Paulo VI
devolveu-lhe o título de “Anunciação do Senhor”, restabelecendo o seu
caráter predominantemente cristológico. Em síntese, trata-se de uma “celebração
(que) era e é festa de Cristo e da Virgem: do Verbo que se torna Filho de Maria
e da Virgem que se torna Mãe de Deus” (Marialis cultus, 6).
A solenidade da Anunciação do Senhor inaugura o
acontecimento em que o Filho de Deus se faz carne para consumar seu sacrifício
redentor, em obediência ao Pai (Hb 10,5-10), e para ser o primogênito dentre os
ressuscitados (1Cor 15,20). A Igreja, como Maria, associa-se à obediência de
Cristo, vivendo sacramentalmente, na fé, o sentido pascal da Anunciação. Maria
é a filha de Sião que, coroando a longa espera, acolhe com seu “fiat” e concebe
o Salvador por obra do Espírito Santo. Nela, Virgem e Mãe, o povo da promessa
torna-se o novo Israel, a Igreja de Cristo. Os nove meses entre a concepção e o
nascimento do Salvador, o Messias, explicam essa data, relacionando-a com a
solenidade de dezembro. Cálculos eruditos e considerações místicas fixavam
igualmente em 25 de março o evento da primeira criação e da renovação do mundo
na Páscoa.
Na primeira leitura (Isaías 7,10-14; 8,10), Acaz, rei de
Jerusalém, vê vacilar o seu trono devido à aproximação de exércitos inimigos.
Sua primeira reação é recorrer a alianças humanas. Isaías, ao contrário, propõe
a resolução do problema pela confiança em Deus. Convida o rei a pedir um “sinal”
(v. 11) que confirme a assistência divina. Acaz recusa a proposta: “não
tentarei o Senhor” (v. 12). Fá-lo por hipocrisia, e não por verdadeiro
sentido religioso. Isaías insiste que, apesar da recusa do rei, Deus lhe dará
um sinal: “a jovem está grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de
Emanuel”, isto é, “Deus conosco”. O sentido imediato dessas palavras
refere-se a Ezequias, filho de Acaz, que a rainha está para dar à luz. Seu
nascimento, naquele contexto histórico, é interpretado como sinal da presença
salvadora de Deus em favor do seu povo aflito. Mais profundamente, as palavras
de Isaías são profecia de um futuro rei salvador. A tradição cristã sempre viu
nesse oráculo o anúncio profético do nascimento de Jesus, Filho da Virgem
Maria.
Na segunda leitura (Hebreus 10,4-10), o texto, retirado de
seu contexto, procura demonstrar que o sacrifício de Cristo é superior aos
sacrifícios do Antigo Testamento. O autor da Carta aos Hebreus relê o Salmo 39
— utilizado pela liturgia desta solenidade como salmo responsorial — como se
fosse uma declaração de intenções do próprio Cristo ao entrar no mundo, no
momento da Encarnação: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade”.
Essa é também a atitude obediencial do povo da antiga aliança e de todo fiel
orante. A Encarnação, como atitude obediencial, manifesta-se no dia da
Anunciação do Senhor a Maria. Esse dia inaugura a peregrinação messiânica que
conduzirá à doação do corpo de Cristo no sacrifício salvífico, novo, único e
definitivo, que se completa na cruz.
No Evangelho (Lucas 1,26-38), uma possível chave de leitura
é vê-lo como um relato transmitido por Lucas a partir das confidências de
Maria. No diálogo entre Deus e a jovem de Nazaré — por meio do anjo Gabriel —
revela-se uma relação viva entre o divino e o humano, em que a proposta do alto
é progressivamente esclarecida. O mensageiro respeita a condição humana de uma
virgem que recebe uma proposta inesperada: ser mãe do Messias. Maria, prometida
em casamento a José, aproxima-se gradualmente do mistério, deixando-se envolver
por ele e adequando o seu próprio projeto à vontade de Deus. E termina
pronunciando o seu “Eis-me aqui!” (cf. v. 38). No Evangelho de hoje
manifesta-se o cumprimento perfeito das promessas divinas e encerra-se o tempo
da espera messiânica. Maria, bendita entre todas as mulheres e agraciada pelo
Senhor, torna-se medianeira da salvação ao conceber e gerar Jesus Cristo, o
Salvador da humanidade. Tudo o que se realiza é obra do Espírito Santo, ação
divina que transforma a história. Embora manifeste uma legítima dúvida — “como
acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” (Lc 1,34) —, Maria
entrega-se plenamente com um “sim” absoluto: “Eis aqui a serva do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). Esse consentimento
confiante a torna instrumento vivo da graça divina para toda a humanidade.
Toda experiência de Deus — como foi a de Maria na Encarnação
— é um acontecimento envolto em profunda alegria. Com a anunciação do anjo, tem
início, de modo decisivo, a história da nossa redenção. O centro desta
solenidade é Cristo, o Verbo de Deus que se fez carne no seio puríssimo da
Virgem Maria. Contemplemos, portanto, o mistério profundo do Verbo eterno que,
por vontade do Pai e ação do Espírito Santo, assumiu a nossa natureza humana no
seio da Virgem Maria, para a nossa salvação. Inaugura-se, assim, o grande
mistério da Encarnação do Filho unigênito de Deus.
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR

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