Irmãos e irmãs, ao iniciarmos esta
Segunda-feira da Semana Santa, a Igreja nos conduz a um clima mais profundo de
recolhimento. Já não estamos na aclamação dos ramos; agora, entramos no
silêncio dos dias que antecedem diretamente a Paixão. A liturgia de hoje nos
apresenta, de modo muito concreto, o amor que se entrega — e, ao mesmo tempo, a
incompreensão diante desse amor.
O Evangelho proclamado, segundo Evangelho de João (cf. Jo 12,1-11), nos leva a
Betânia, seis dias antes da Páscoa. Jesus está na casa de Lázaro, aquele que
Ele havia ressuscitado. Ali, num ambiente de amizade e intimidade, acontece um
gesto inesperado: Maria toma um perfume de nardo puro, de grande valor, unge os
pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos. E o evangelista observa: “A casa
inteira encheu-se com o perfume do bálsamo” (Jo 12,3).
Este gesto é o que a tradição
espiritual chama de “depósito”: Maria derrama tudo, não guarda nada para si. O
perfume, caríssimo, é gasto sem medida. Não há cálculo, não há reserva. É um
gesto de amor total, gratuito, sem economia. E aqui está o primeiro ponto que
nos interpela: diante de Cristo, nós também sabemos nos dar por inteiro? Ou
vivemos uma fé calculada, onde oferecemos apenas o que sobra?
Mas imediatamente surge a voz da
crítica. Judas questiona: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos
denários para os dar aos pobres?” (Jo 12,5). À primeira vista, parece um
argumento justo, até piedoso. Mas o Evangelho revela a verdade: “Ele falou
assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão” (Jo
12,6). Aqui está uma denúncia clara: nem toda aparência de caridade é
verdadeira. Há discursos que parecem corretos, mas escondem interesses e
incoerências.
Jesus, então, responde: “Deixa-a;
ela fez isso em vista do dia da minha sepultura” (Jo 12,7). O gesto de
Maria é profético. Sem talvez compreender plenamente, ela antecipa o que está
por vir: a morte de Jesus. Enquanto muitos ainda resistem à ideia da cruz, ela,
com seu amor, já entra nesse mistério. O perfume derramado é sinal de entrega,
mas também anúncio de sepultamento.
E aqui está o coração deste dia: o
verdadeiro amor é aquele que se antecipa, que se entrega antes mesmo de
entender tudo, que permanece fiel mesmo quando o caminho aponta para a dor.
A primeira leitura, do profeta Isaías
(cf. Is 42,1-7), nos apresenta o Servo de Deus: “Ele não gritará, não
levantará a voz... não quebrará o caniço rachado” (Is 42,2-3). É a figura
de um Messias manso, discreto, que não se impõe pela força. Este Servo é Cristo,
que caminha resolutamente para a cruz, não com violência, mas com mansidão e
fidelidade.
Irmãos e irmãs, o “depósito” de Maria
nos coloca diante de uma decisão concreta nesta Semana Santa. O que nós estamos
dispostos a oferecer ao Senhor? Guardamos partes da nossa vida, ou nos
entregamos por inteiro?
É fácil criticar, como Judas. É fácil
racionalizar, justificar, adiar. Difícil é amar sem medida, é derramar o
perfume da própria vida aos pés de Cristo.
Além disso, o gesto de Maria “enche a
casa com o perfume”. O amor verdadeiro não fica escondido — ele transforma o
ambiente, contagia, se espalha. Uma vida entregue a Deus não passa
despercebida.
Entramos, portanto, em dias decisivos.
A cruz se aproxima. E a liturgia nos ensina: não basta admirar Jesus; é preciso
estar com Ele. Não basta reconhecer seu valor; é preciso entregar-se a Ele.
Que, nesta Semana Santa, não sejamos
como Judas, presos a interesses e aparências, mas como Maria, capazes de um
amor gratuito, concreto e total.
Que também nós possamos fazer o nosso
“depósito”: colocar diante do Senhor tudo o que somos, tudo o que temos, sem
reservas. Porque, no fim, é isso que Ele fará por nós na cruz: entregar tudo.
Amém.
Crédito da imagem: Ícones de Bose - Amigos do Senhor.
Maria unge os pés de Jesus com perfume (cf. Jo 12,1-11).

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