Irmãos e irmãs,
A liturgia deste Terceiro
Domingo do Tempo Comum apresenta-nos o início da vida pública de Jesus e revela
o núcleo essencial da sua missão: fazer brilhar a luz de Deus nas trevas da
história humana e chamar homens e mulheres a participarem ativamente do Reino.
A Palavra de Deus de hoje não fala de um projeto distante ou abstrato, mas de
uma ação concreta de Deus que entra na história, visita o seu povo e transforma
a vida daqueles que se deixam alcançar por Ele.
Na primeira leitura, o
profeta Isaías anuncia uma grande esperança ao povo oprimido: “O povo que andava nas trevas viu
uma grande luz; para os que habitavam na região da sombra da morte, uma luz
resplandeceu”
(Is 9,1). O contexto é de sofrimento, dominação estrangeira e perda de
identidade. No entanto, Deus não abandona o seu povo. Quando tudo parece
mergulhado na escuridão, Ele faz surgir a luz. Esta luz não é apenas consolo
espiritual; é promessa de libertação, de justiça e de vida nova. Deus age na
história, ainda que nem sempre segundo os nossos tempos e expectativas.
O Evangelho retoma
diretamente essa profecia e afirma que ela se cumpre em Jesus: “Desde então, Jesus começou a
pregar, dizendo: ‘Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo’” (Mt 4,17). Mateus faz questão de
situar o início da missão de Jesus na Galileia, terra marginalizada,
considerada impura pelos centros religiosos. É ali, na periferia, que a luz
começa a brilhar. Deus não escolhe os palácios nem os lugares de prestígio;
escolhe os caminhos comuns da vida, onde o povo luta para sobreviver.
A primeira palavra de
Jesus é um apelo forte e exigente: conversão. Converter-se não é apenas mudar
alguns comportamentos externos, mas mudar de direção, de mentalidade, de lógica
de vida. É abandonar as trevas da autossuficiência, da injustiça, da indiferença,
e acolher a luz do Reino de Deus. Converter-se é acreditar que Deus está
agindo, aqui e agora, e que sua presença transforma a história.
Logo em seguida, Jesus
chama os primeiros discípulos: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4,19). Pedro, André, Tiago e João deixam
imediatamente as redes, o barco e o pai, e seguem Jesus (cf. Mt 4,20.22). Esse
detalhe é fundamental: o seguimento exige decisão, ruptura e confiança. Eles
deixam o que lhes garantia sustento e segurança para abraçar uma missão nova,
cujo sentido só se compreende à luz da fé.
Seguir Jesus é entrar
numa nova forma de viver. O Reino de Deus não se constrói sozinho; ele se
realiza através de pessoas chamadas, transformadas e enviadas. “Pescar homens”
não significa dominar ou conquistar, mas resgatar vidas, devolver dignidade, tirar
pessoas das águas da morte e da exclusão. É participar da missão libertadora de
Cristo.
A segunda leitura, da
Primeira Carta aos Coríntios, ajuda-nos a compreender como esse seguimento deve
se concretizar na vida da comunidade. São Paulo faz um apelo firme: “Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso
Senhor Jesus Cristo, que todos estejais de acordo e que não haja divisões entre
vós” (1Cor 1,10). A
divisão contradiz o Evangelho. Uma comunidade marcada por disputas, rivalidades
e personalismos obscurece a luz de Cristo.
Paulo recorda que o
centro da fé não é este ou aquele pregador, mas Cristo crucificado: “Acaso Cristo está dividido?” (1Cor 1,13). O Reino anunciado por
Jesus gera comunhão, fraternidade e unidade. Onde há vaidade, busca de poder e
fechamento, a luz se enfraquece e o testemunho perde força.
Celebrar este domingo é
reconhecer que também nós habitamos, muitas vezes, regiões de sombra: crises
pessoais, conflitos familiares, injustiças sociais, violência, pobreza e tantas
formas de sofrimento. A boa notícia é que a luz continua a brilhar. Cristo
permanece caminhando pela Galileia de hoje, chamando-nos à conversão e ao
seguimento.
Que esta Eucaristia
renove em nós a coragem de deixar as “redes” que nos prendem, de escolher a luz
em vez das trevas e de assumir, como Igreja, a missão de anunciar e construir o
Reino de Deus, com palavras e, sobretudo, com a vida. Como nos recorda o salmista:
“O Senhor é
minha luz e salvação; de quem terei medo?” (Sl 27,1). Amém.
+Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá

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