Irmãos
e irmãs,
Depois
de termos celebrado, no domingo passado, o Batismo do Senhor, a liturgia nos
conduz agora ao Segundo Domingo do Tempo Comum. Com isso, deixamos o tempo das
grandes manifestações do Natal e entramos na vida pública de Jesus, no
cotidiano da sua missão. O Tempo Comum não é um tempo “menor” ou “sem
importância”; ao contrário, é o tempo em que aprendemos a seguir o Senhor no
dia a dia, na realidade concreta da vida, onde a fé é provada, amadurecida e
testemunhada.
A
Palavra de Deus deste domingo nos apresenta, de forma muito clara, quem é Jesus
e qual é a missão daqueles que o seguem. Tudo gira em torno do chamado, do
testemunho e da identidade de Cristo como o Servo de Deus, o Cordeiro que tira
o pecado do mundo.
Na
primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaías (Is 49,3.5-6), ouvimos um
dos chamados “cânticos do Servo do Senhor”. Esse Servo é escolhido desde
o ventre materno, chamado pelo nome, consagrado para uma missão que vai além de
um grupo ou de uma nação. Deus diz que não basta restaurar as tribos de Israel:
o Servo será “luz das nações”, para que a salvação alcance os confins da
terra. Aqui já se revela um traço fundamental da ação de Deus: Ele não se
fecha, não se limita, não exclui. O projeto divino é universal. Deus quer
salvar a todos, e escolhe instrumentos humanos para que essa luz chegue a todos
os povos.
Essa
leitura nos ajuda a compreender que a vocação não é privilégio, mas
responsabilidade. Ser escolhido por Deus não é motivo de orgulho, mas de
serviço. O Servo existe para que outros tenham vida, para que outros vejam a
luz. Essa lógica atravessa toda a Escritura e encontra sua plena realização em
Jesus Cristo.
O
salmo responsorial (Sl 39[40]) coloca em nossos lábios uma resposta confiante: “Eis
que venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade”. O salmista nos recorda
que Deus não se agrada apenas de ritos exteriores, de sacrifícios vazios, mas
de um coração disposto a escutar e a obedecer. Fazer a vontade do Senhor é o
verdadeiro culto, é a expressão mais autêntica da fé. Esse salmo já prepara o
terreno para compreendermos a atitude de Jesus e também o chamado que Ele
dirige a cada um de nós.
Na
segunda leitura, São Paulo, escrevendo aos Coríntios (1Cor 1,1-3), inicia sua
carta recordando a identidade da comunidade cristã: “santificados em Cristo
Jesus, chamados a ser santos”. A santidade, aqui, não é apresentada como algo
reservado a poucos, mas como vocação de todos os batizados. Paulo não escreve a
uma comunidade perfeita; ao contrário, Corinto era marcada por divisões,
conflitos e incoerências. Mesmo assim, ele afirma: vocês são chamados à
santidade. Isso nos ensina que a santidade não é ausência de fraquezas, mas
resposta fiel à graça de Deus no meio das fragilidades humanas.
Chegamos,
então, ao Evangelho de João (Jo 1,29-34), que é o centro da liturgia deste
domingo. João Batista aponta para Jesus e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo”. Não se trata apenas de um título bonito ou
simbólico. João identifica Jesus como aquele que oferece a própria vida, como o
cordeiro pascal, que assume sobre si o pecado da humanidade para libertá-la.
Jesus não vem para condenar, mas para salvar; não vem para excluir, mas para
reconciliar.
João
Batista tem plena consciência do seu papel: ele não é o Messias, não é a luz,
não é o centro. Sua missão é apontar para Cristo e desaparecer, para que Jesus
apareça. Esse é um ensinamento profundo para a Igreja e para cada cristão. Toda
verdadeira missão cristã é cristocêntrica. Quando o discípulo se coloca no
centro, quando busca a si mesmo, quando se apropria da missão, algo está
errado. O verdadeiro testemunho cristão é aquele que conduz ao encontro com
Jesus, e não consigo mesmo.
João
também afirma: “Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. O
testemunho nasce da experiência. João viu, ouviu, experimentou. Não se trata de
repetir palavras decoradas, mas de falar daquilo que se viveu. Isso interpela
diretamente a nossa fé: somos cristãos apenas de tradição ou somos testemunhas?
Falamos de Jesus por hábito ou por experiência pessoal com Ele?
Neste
Segundo Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos convida a dar um passo a mais no
nosso caminho de fé. Depois de reconhecer quem é Jesus, somos chamados a
segui-lo e a testemunhá-lo. Assim como o Servo de Isaías, como João Batista e
como a primeira comunidade cristã, também nós somos chamados a ser luz, a
apontar para Cristo, a viver de tal modo que outros possam reconhecer o Senhor
em nossa vida.
Isso
se concretiza nas pequenas coisas do cotidiano: na fidelidade à oração, na
escuta da Palavra, na participação consciente na Eucaristia, no compromisso com
a justiça, na caridade com os mais pobres, no perdão oferecido e recebido, na
coerência entre fé e vida. Não se trata de grandes discursos, mas de um
testemunho silencioso e firme.
Irmãos
e irmãs, ao iniciarmos este Tempo Comum, peçamos a graça de reconhecer Jesus
como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e de renovar nossa adesão a
Ele. Que possamos dizer, com a vida e não apenas com palavras: “Eis que
venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade”. Que o Senhor nos conceda a
humildade de João Batista, a disponibilidade do Servo e a fidelidade dos
verdadeiros discípulos.
Amém.
+Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá
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