Amados
irmãos e irmãs, a nossa fé nos garante que Deus é a própria essência do amor.
Para que pudéssemos compreender a grandeza desse sentimento na prática, o
Criador nos presenteou com a família. Não é à toa que o mundo inteiro reconhece
a doação de uma mãe e de um pai por seus filhos como a maior e mais profunda
expressão de afeto conhecida pela humanidade. O sacrifício diário dos pais por
suas crianças não nasce de um mero contrato social, mas espelha diretamente o
coração de Deus, revelando que a família é o projeto divino para acolher e
nutrir a vida.
É
verdade que as eras mudam e, com elas, a sociedade passa por transformações
profundas. É natural que o avanço acelerado dos nossos tempos desperte
questionamentos sobre os modelos de convivência e sobre a própria formação dos
lares. A Igreja compreende essas inquietações modernas com um olhar afetuoso de
mãe, atenta aos dilemas das novas gerações. Contudo, mesmo diante de tantas
mudanças, há uma realidade estrutural que o tempo não apaga: o ser humano
continua necessitando de raízes, de pertencimento e de um porto seguro. Por
isso, a família permanece de pé como a principal e mais bela expressão de
acolhimento que possuímos, indispensável para a nossa sobrevivência emocional e
espiritual.
Essa
necessidade constante de buscar sentido e pertencimento frequentemente
transborda para a nossa cultura. A arte, afinal, é o espelho da alma humana e
um instrumento valioso para nos ajudar a compreender as complexidades do mundo.
Justamente por ter essa força imensa de tocar multidões e moldar consciências,
quem produz cultura carrega uma responsabilidade profunda sobre a mensagem que
entrega à sociedade. Uma obra cumpre o seu propósito mais nobre quando ilumina
a mente, pacifica os corações e promove o encontro. Por outro lado, quando a
arte se desvia para ridicularizar a fé alheia ou escarnecer da família, ela
perde a sua essência. A verdadeira liberdade de expressão cresce e se
engrandece quando dialoga com o respeito.
Esse
mesmo cuidado rigoroso deve se estender ao nosso ambiente público, hoje tão
marcado pela polarização. É evidente que a política envolve a oposição de
ideias, a divergência de propostas e o debate sobre como o país deve funcionar.
Esse contraste é perfeitamente legítimo e até necessário para o amadurecimento
da democracia. O perigo surge quando perdemos os limites do respeito sagrado. A
família, a religião e os valores da nossa fé são os grandes alicerces da
sociedade e, por isso mesmo, devem estar absolutamente acima de qualquer
disputa partidária. Transformar crenças íntimas e a instituição familiar em
munição para atacar adversários públicos é um erro que fere profundamente a
alma do nosso povo.
Para
nos guiar com segurança em meio a essas instabilidades culturais e políticas, a
voz dos nossos Papas tem sido um farol constante. São João Paulo II sempre nos
recordou que a família é o santuário intocável da vida. Com a mesma firmeza, o
Papa Bento XVI exortou a sociedade a defender essa célula mater com coragem.
Mais tarde, o saudoso Papa Francisco, com sua profunda sabedoria pastoral, nos
ensinou que o lar precisa ser a nossa primeira escola de perdão e ternura.
Hoje, dando continuidade a esse belíssimo legado, o atual Papa Leão XIV nos
pede para usarmos o amor que aprendemos em casa como instrumento para construir
pontes de diálogo perante o mundo.
A
resposta para as nossas crises não está na divisão, mas no amor e no respeito
mútuo. Cuidem das suas famílias com dedicação. Abram espaço para o perdão
dentro de casa, preservem a fé e recusem a lógica do ódio. Que Deus abençoe
imensamente todos os lares brasileiros e nos conceda o dom da paz.
+Anuar
Battisti
Arcebispo emérito de Maringá
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