Como
devemos responder à oferta de salvação que Deus nos faz? A liturgia do sexto
domingo do Tempo Comum propõe-nos algumas respostas. Entre as diversas
considerações que as leituras nos trazem, sobressai esta: somos chamados por
Deus a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade
completa e eterna; não podemos, por desleixo, por comodismo, por falta de
compromisso, ignorar uma proposta que nos garante a vida em plenitude.
Na segunda
leitura – 1Cor 2,6-10 –, o apóstolo Paulo apresenta o plano salvador de Deus
(aquilo a que ele chama a “sabedoria de Deus” ou o “mistério”). É um projeto
que Deus preparou desde sempre “para aqueles que o amam”, que esteve oculto aos
olhos dos homens, mas que Jesus Cristo revelou com a sua pessoa, com as suas
palavras, com os seus gestos e, sobretudo, com o dom da sua vida até ao
extremo. Na cruz onde Jesus entregou a vida vemos – ao vivo e a cores – o amor
que Deus tem por nós; nesse amor descobrimos o caminho que leva à salvação, à
nossa plena realização. As contendas da comunidade podem impedir a compreensão
da sabedoria de Deus. Essa sabedoria, dada pelo Espírito, abre os corações à
compreensão dos mistérios de Deus e permite ver o Senhor da glória naquele que
os homens crucificaram.
A primeira
leitura – Eclo 15,16-21 – diz-nos, no entanto, que somos livres de
escolher entre as propostas de Deus (que conduzem à vida e à felicidade) e a
nossa autossuficiência (que conduz, quase sempre, à morte e à desgraça). Para
aqueles que escolhem a vida, Deus oferece-lhes os seus “mandamentos”: são os
“sinais” que mostram o caminho da salvação. Deus criou o ser humano livre para
decidir sobre as próprias escolhas. Nem sempre, porém, a pessoa sabe utilizar
sua liberdade para optar pelo bem e pela edificação de si e dos outros. As
escolhas que fazemos têm consequências, e seremos responsáveis por elas.
No Evangelho
– Mt 5,17-37 –, Jesus pede aos seus discípulos – àqueles que aceitam a oferta
da salvação que Ele traz e se dispõem a caminhar com Ele – que não se limitem a
“serviços mínimos”, isto é, ao cumprimento da letra da “Lei”, mas adiram a Deus
de todo o coração e busquem a vontade do Pai com paixão, com entusiasmo, com
total compromisso. Jesus não pretende anular ou suprimir os Mandamentos, mas
apresenta o novo jeito de interpretá-los e salvá-los do formalismo e de
qualquer moralismo. Dá o verdadeiro valor da “Lei” e dos “Profetas”, que têm a
função de promover a justiça e vida para todos. A moral evangélica brota de um
coração que se converte sem cessar ao Senhor.
Por
isso, neste domingo, a Igreja nos convida a compreender um novo modo de nos
relacionarmos com a Lei – e, por consequência, um novo modo de nos
relacionarmos com Deus. Disse Jesus: “Se vossa justiça não for maior que a
justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”
(Mt 5,20). Esse versículo faz parte do Sermão da Montanha, no qual Jesus
apresenta os critérios para que seus discípulos vivam como os verdadeiros
bem-aventurados do Reino.
Cristo
não abole da Lei, mas a leva à sua plenitude (cf. Mt 5,17). Ele a reveste de um
novo espírito: não mais o legalismo dos fariseus, que se prendiam à letra, mas
a profundidade da justiça do coração. O dom do Sinai, antes visto como um
código, é agora interpretado como um caminho de sabedoria e de conversão
interior.
Não
basta apenas não cometer a morte física de quem quer que seja. Não podemos
matar com a língua, com palavras ou atitudes negativas. Não adianta fazer
pregações bonitas se suas atitudes no cotidiano são demoníacas.
Jesus
nos deixa uma Palavra de Salvação. Depois de termo sum compromisso com a defesa
da vida, com a fidelidade em todas as nossas atitudes, devemos superar os
conflitos, os defeitos alheios e tecermos relações humanas baseadas na
confiança. A Lei é o caminho da justiça e da libertação. Devemos estar livres
do legalismo doentio, que não nos torna santos diante de Deus nem nos garante o
acesso ao Reino de Deus. Cabe-nos escolher ente o bem e o mal, a felicidade e
infelicidade. Só é feliz quem na lei do Senhor Deus, de coração, vai
progredindo!
Que
Deus nos ajude a discernir, com sabedoria, para progredir sempre nos caminhos
de Cristo e da Igreja, com justiça e paz!
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR

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