Para que vivemos? Qual é o sentido da nossa vida? Como devemos marcar a nossa passagem pela terra? Que “obras” devemos realizar? A Palavra de Deus do 5.º Domingo do Tempo Comum propõe-nos respostas para essas questões. Ela nos desafia a ser “luz” que brilha e ilumina o mundo com as cores de Deus.
Na
primeira leitura – Is 58,7-10 –, um profeta anônimo do século VI a.C. convida
os habitantes de Jerusalém a serem luz de Deus que ilumina a noite do mundo.
Como? Oferecendo a Deus o espetáculo de uma religião feita de rituais vazios e
desligados da vida? Não. Ser “luz de Deus” passa por partilhar o pão com os
famintos, ficar ao lado dos injustiçados, cuidar daqueles de quem ninguém cuida
e ser testemunha da misericórdia e da bondade de Deus junto aos que sofrem. O
profeta Isaías denuncia uma religião feita de puro ritualismo, sem a vivência
do amor e da justiça. O culto agradável a Deus é a prática da justiça, que
implica alimentar quem tem fome, acolher os pobres e peregrinos e abandonar os
instrumentos de opressão.
No
Evangelho – Mt 5,13-16 –, Jesus recorre a duas metáforas para definir os
contornos da missão que confia aos seus discípulos. Os que integram a
comunidade do Reino de Deus devem ser “sal da terra” e “luz do mundo”. Com as
suas boas obras, os discípulos de Jesus devem dar sabor à vida e fazer
desaparecer as sombras que trazem sofrimento à existência de seus irmãos. Os
discípulos de Jesus são chamados a ser sal e luz da humanidade. São sal à
medida que vivem a ética e a justiça, impedindo que a sociedade se corrompa.
São luz à medida que suas boas obras atraem o olhar da comunidade e esta
glorifica a Deus. O cristão é sal da terra e luz do mundo quando vive a
proposta das bem-aventuranças anunciadas por Jesus.
Os
bem-aventurados do Reino dos Céus são, em toda e qualquer realidade, sal e luz.
O texto evangélico de hoje é continuação do domingo precedente. Lá, Jesus
proclama quem são os bem-aventurados do Reino; hoje, o Senhor desperta a
consciência deles para lhes revelar a missão no mundo: são chamados a dar cor e
sabor. Na comida, o sal deve estar na justa medida, para que o tempero seja
ideal. No Reino dos Céus, o discípulo, associado à simbologia do sal, é
convocado a dar gosto às realidades, purificando-as do mal e do pecado; por
isso, é chamado a dar sentido às coisas do mundo. Em relação à outra imagem do
texto evangélico, o cristão é luz porque busca, segue, caminha e se orienta por
Cristo, a verdadeira luz do mundo. Somos luz não por sermos luminosos em nós
mesmos, mas por sermos iluminados pelo Senhor. Assim, ser sal e ser luz
torna-se a missão do cristão que se propõe a trilhar o caminho de Jesus, o
caminho das bem-aventuranças.
Quem
é bem-aventurado: “Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e
peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne!”
(Is 58,7).
Luz
do mundo é paixão. É Deus olhando para nós com olhar de apaixonado, como o
noivo que, do altar, contempla a noiva entrando belamente na Igreja. Seus olhos
são a luminosidade que irradia o amor dos corações. A graça de Deus é assim:
Deus nos acolhendo e nos amando.
Na
segunda leitura – 1Cor 2,1-5 –, o apóstolo Paulo convida os cristãos de Corinto
a se apegarem à “sabedoria de Deus” e a prescindirem da “sabedoria do mundo”. A
salvação do ser humano não vem das palavras bonitas, dos sistemas filosóficos
bem elaborados ou das qualidades humanas dos anunciadores da mensagem
salvífica, mas do amor de Deus, expresso naquela cruz onde o Filho de Deus
ofereceu a vida e nos deixou a lição do amor levado ao extremo. Paulo é
testemunha privilegiada dessa mensagem: viver a partir da “loucura da cruz” é o
que dá sentido pleno à vida humana. O pregador não se baseia na eloquência nem
na sabedoria humanas para anunciar o Evangelho e persuadir; é o poder do
Espírito e a força da cruz que podem converter os corações.
Viver
é ter sabor, temperar e iluminar. Que nossos corações estejam abertos para
acolher e cuidar da vida em sua totalidade! Na montanha sagrada, Cristo nos
proclama: “Vós sois o sal da terra e a luz do mundo!”. É o próprio
Cristo Jesus que, no seu amor, nos concede a dignidade de filhos e filhas de
Deus ao sermos banhados pelas águas do Batismo, recebendo a força necessária
para sermos sal e luz no coração do mundo.
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR
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