Irmãos
e irmãs, iniciamos hoje o tempo santo da Quaresma, um caminho espiritual que
nos conduz à Páscoa do Senhor. A Igreja coloca diante de nós um chamado claro à
conversão. Ao recebermos as cinzas, escutamos palavras fortes: “Convertei-vos
e crede no Evangelho” (Mc 1,15) ou ainda “Lembra-te de que és pó e ao pó
voltarás” (cf. Gn 3,19). Não são palavras de desânimo, mas de verdade.
Recordam-nos que a vida é passageira e que somente Deus permanece para sempre.
A
primeira leitura apresenta o apelo do profeta Joel: “Voltai para mim de todo
o coração, com jejuns, lágrimas e gemidos” (Jl 2,12). Deus não deseja
gestos externos vazios. Por isso o profeta insiste: “Rasgai o vosso coração,
e não as vossas vestes” (Jl 2,13). O Senhor não se contenta com práticas
religiosas sem mudança interior. Ele quer o coração convertido, capaz de
reconhecer o pecado e recomeçar. A razão dessa esperança está no próprio Deus,
que é “bondoso e compassivo, lento para a cólera e rico em misericórdia”
(Jl 2,13).
São
Paulo, na segunda leitura, fala com urgência espiritual: “Somos embaixadores
de Cristo… deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). O apóstolo não
fala apenas aos pecadores públicos, mas a todos os cristãos. A reconciliação é
um caminho permanente. Por isso ele afirma: “Eis o tempo favorável, eis o
dia da salvação” (2Cor 6,2). A conversão não pode ser adiada. Deus age
hoje, neste momento concreto da nossa vida.
No
Evangelho, Jesus apresenta três pilares da vida quaresmal: esmola, oração e
jejum. Ele começa com um alerta: “Ficai atentos para não praticar a vossa
justiça diante dos homens só para serdes vistos por eles” (Mt 6,1). A fé
não pode transformar-se em aparência ou busca de reconhecimento.
Sobre
a esmola, Jesus ensina: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a
direita” (Mt 6,3). A caridade verdadeira nasce do amor e não da vaidade. A
esmola cura o egoísmo e abre o coração para os irmãos, sobretudo os mais
necessitados.
Sobre
a oração, o Senhor orienta: “Quando rezares, entra no teu quarto, fecha a
porta e reza ao teu Pai em segredo” (Mt 6,6). A oração autêntica não é
discurso público, mas encontro pessoal com Deus. É no silêncio que o coração se
transforma.
E,
falando do jejum, Jesus recomenda: “Quando jejuardes, não fiqueis com rosto
triste… teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa” (Mt
6,16-18). O jejum não é aparência de sacrifício, mas exercício de liberdade
interior. Ele nos ensina que não vivemos apenas do que é material, recordando
aquilo que o próprio Cristo disse: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda
palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).
As
cinzas que recebemos hoje recordam nossa fragilidade, mas também anunciam
esperança. Reconhecer-se pó não é perder a dignidade, mas reconhecer que tudo é
graça. Quando abandonamos a ilusão da autossuficiência, abrimos espaço para
Deus agir.
A
Quaresma é, portanto, tempo de retorno. Tempo de rever caminhos,
reconciliar-se, perdoar, buscar o sacramento da confissão e retomar uma vida
espiritual mais séria. O Senhor não deseja uma mudança superficial, mas um
coração novo, como anuncia a Escritura: “Criai em mim um coração que seja
puro” (Sl 50,12).
Iniciemos
este caminho quaresmal com sinceridade. Se permitirmos que Deus transforme
nosso coração, chegaremos à Páscoa renovados, experimentando aquilo que São
Paulo anuncia: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor
5,17). Que estes quarenta dias sejam um verdadeiro recomeço na graça de Deus.
Amém.
Dom Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá

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