Amados
irmãos e irmãs,
Ao
iniciarmos nossa caminhada quaresmal neste ano de 2026, somos interpelados por
uma mensagem de profunda sensibilidade humana e espiritual enviada pelo Papa
Leão XIV. Intitulada "Escutar e jejuar: Quaresma como tempo de
conversão", a carta do Santo Padre toca em feridas muito atuais de
nossa convivência e nos oferece o remédio do Evangelho. Não se trata apenas de
ritos ou privações, mas de uma verdadeira reeducação dos nossos sentidos para o
amor.
O
Papa inicia sua reflexão com uma imagem bíblica poderosa: a sarça ardente. Ali,
Deus revela Sua identidade a Moisés não como um ser distante, mas como Aquele
que escuta: "Eu bem vi a opressão do meu povo... e ouvi o seu
clamor" (Ex 3,7).
Fico
pensando em quantas vezes, em nossos atendimentos, nas visitas aos enfermos ou
na gestão de nossas obras sociais, o que as pessoas mais pedem não é uma
solução imediata, mas um ouvido atento. O Santo Padre nos recorda que "a
disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo
de entrar em relação com o outro".
Nesta
Quaresma, convido vocês a este exercício de "hospitalidade interior".
Escutar não é apenas ouvir sons; é permitir que a realidade do outro —
especialmente o grito dos pobres e dos que sofrem injustiças — ressoe dentro de
nós e modifique a nossa agenda, o nosso conforto e as nossas prioridades.
Talvez
o ponto mais desafiador da mensagem de Leão XIV para este ano seja a proposta
de um jejum muito específico: a abstinência de palavras ofensivas. Vivemos
tempos de muito barulho e pouca reflexão, onde a agressividade verbal se tornou
moeda comum nas redes sociais e até em nossos lares.
O
Papa é direto: precisamos "desarmar a linguagem". Ele nos pede para
renunciar às palavras mordazes, às fofocas e aos julgamentos precipitados.
Santo Agostinho já nos ensinava que o jejum serve para "dilatar a
alma", para que ela tenha mais capacidade de Deus. Pois bem, um coração
cheio de amargura e uma boca cheia de insultos não deixam espaço para a Graça.
Proponho,
então, que nossa penitência quaresmal passe obrigatoriamente pela "cultura
da gentileza". Que, ao sentirmos o impulso de ferir com a língua, façamos
o jejum do silêncio. E que esse silêncio fértil dê lugar a palavras de
esperança e paz.
Por
fim, a mensagem nos alerta: a conversão não é um projeto individualista. A
Quaresma nos chama a um "caminho compartilhado". Nas nossas
paróquias, nas famílias e, de modo especial, na nossa atuação junto à saúde e
ao desenvolvimento humano, precisamos criar espaços onde "a voz do
outro" tenha lugar.
Como
nos lembra o livro de Neemias, citado pelo Papa, o povo se reunia junto
para escutar a Palavra e jejuar, renovando assim a aliança. Que nossas
comunidades sejam esses "lugares de acolhida", onde a escuta gera
verdadeiros caminhos de libertação.
Que
a Virgem Maria, a mulher da escuta atenta, nos acompanhe nestes quarenta dias.
Uma santa e abençoada Quaresma a todos!
Dom Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá
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