Iniciamos
mais uma Quaresma que a Divina Providência nos dá a graça de vivenciar.
Iniciando a caminhada rumo à Páscoa, neste tempo quaresmal, procuremos trilhar
o caminho da conversão proposto pelo Evangelho e pela Campanha da Fraternidade.
Neste ano, a Campanha da Fraternidade chama a nossa atenção para o direito de
todos à moradia, com o lema: “Ele veio morar entre nós!” (Jo 1,14).
Na
primeira leitura – Joel 2,12-18 – Joel é provavelmente um sacerdote-profeta que
vive no Templo, depois do exílio. Fiel ao serviço da Casa de Deus, exorta o
povo, que passa por uma grave carestia provocada por uma invasão de gafanhotos
(1,2–2,10), à oração e à conversão. O próprio culto no templo tinha cessado
(1,13.16). O profeta, que sabe ler os sinais dos tempos, anuncia a proximidade
do «dia do Senhor» e convida o povo ao jejum, à súplica e à penitência
(2,12.15-17). “Convertei-vos”, grita o profeta. O termo hebraico
subjacente é shûb, que significa
voltar atrás, regressar. O povo que virara as costas a Deus devia voltar
novamente o coração para Ele e retomar o culto no templo, um culto autêntico,
que manifestasse a conversão interior. O povo pode voltar novamente para Deus,
porque Ele é misericordioso (v. 13) e também pode mudar de decisão e voltar
atrás (v. 14). Um amor sincero a Deus, uma fé consistente e uma esperança que
se torna oração coral e penitente darão ao profeta e aos sacerdotes as devidas
condições para implorarem a compaixão de Deus para com o seu povo. O profeta
Joel faz forte apelo à conversão, à mudança de vida. Não basta, porém, simples
ritual para se preparar para uma celebração: é necessário que a pessoa, em sua
integridade, se volte para Deus no dia a dia. Os gestos vazios não enganam nem
agradam a Deus.
Na
segunda leitura – 2 Coríntios 5,20–6,2 – «Reconciliai-vos com Deus» é o apelo
de Paulo. A reconciliação é possível porque essa é a vontade do Pai,
manifestada na obra redentora do Filho e no poder do Espírito que sustenta o
serviço dos apóstolos. O v. 21 é o ponto alto do texto, pois proclama o juízo
de Deus sobre o pecado e o seu incomensurável amor pelos pecadores, pelos quais
não poupou o seu próprio Filho (cf. Rm 5,8; 8,32). Cristo carregou sobre si o
pecado do mundo e expiou-o na sua própria carne. Assim, podemos apropriar-nos
da sua justiça-santidade. O Inocente tornou-se pecado para que pudéssemos
tornar-nos justiça de Deus. E agora é o tempo favorável para aproveitar essa
graça: deixemo-nos reconciliar (katallássein) com Deus. O termo grego indica a transformação da nossa relação com
Deus e, por consequência, da nossa relação com os outros homens. Acolhendo o
amor de Deus, que nos leva a viver não mais para nós mesmos, mas para Aquele
que morreu e ressuscitou por nós (vv. 14s.), podemos tornar-nos nova criação em
Cristo (5,18). Tempo favorável, a Quaresma nos convida a reconciliarmo-nos com
Deus e com os irmãos e a nos abrirmos à graça do perdão. Somos colaboradores de
Deus para tornar este mundo, obra de suas mãos, sempre melhor.
No
Evangelho – Mateus 6,1-6.16-18 – Jesus pede aos seus discípulos uma justiça
superior à dos escribas e fariseus, mesmo quando praticam as mesmas obras que
eles: “Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens para vos
tornardes notados por eles”. Agora aplica esse princípio a algumas práticas
religiosas do seu tempo: a esmola, o jejum e a oração. Há que estar atentos às
motivações que nos levam a dar esmola, a orar e a jejuar, porque o Pai vê o que
está oculto, os sentimentos profundos do coração. Se buscamos o aplauso dos
homens, a vanglória, Deus nada tem para nos dar. Mas, se buscamos a relação
íntima e pessoal com Ele, a comunhão com Ele, seremos recompensados. Se não
fizermos as boas obras com reta intenção, somos hypokritoi, isto é, comediantes e mesmo ímpios, de acordo com o uso hebraico do
termo.
Jesus,
no Evangelho, mostra-nos qual deve ser a nossa atitude quando praticamos obras
de penitência (tais como a esmola, a oração e o jejum) e insiste na retidão
interior, garantida pela intimidade com o Pai. Era essa a atitude e a
orientação do próprio Jesus em todas as suas palavras e obras. Nada fazia para
ser admirado pelos homens. Nós podemos ser tentados a fazer o bem para obter a
admiração dos outros. Mas essa atitude, por um lado, fecha-nos em nós mesmos;
por outro, projeta-nos para fora de nós, tornando-nos dependentes da opinião
alheia.
As
três práticas quaresmais representam nossos compromissos com os outros —
esmola/caridade —, com Deus — oração — e conosco mesmos — jejum. Jesus não nega
o valor delas, mas diz que devem ser vividas com autêntica justiça, sob o risco
de alimentarmos o verme da vaidade, realizando-as por ostentação. Trata-se de
um alerta contra o farisaísmo, que continua, hoje como ontem, a manchar as
melhores práticas.
Esmola: mais do que dar alguns trocados aos necessitados para aliviar a
própria consciência, é solidarizar-nos com os que não têm condições de vida
digna. Quando realizamos ações concretas em favor do bem dos que mais sofrem,
mostramos a Deus que a nossa esmola é, de fato, expressão de um coração
compassivo e solidário.
Oração: ensinada por Jesus, só tem sentido se feita com humildade diante de
Deus e dos outros. Rezar é confiar em Deus, que nos atende quando rezamos em
nome de Jesus, quando pedimos coisas boas, como o Espírito Santo, o perdão e o
bem dos outros.
Jejum: a privação de alimento traz consigo a denúncia profética de um mundo
injusto, onde poucos têm tanto, enquanto muitos morrem de fome. Devemos fazer o
jejum e oferecer o que não comemos em favor dos que nada têm para comer.
Abstinência
de carne: mostra a nossa liberdade diante do mundo e a
nossa renúncia em favor da liberdade dos filhos de Deus.
Ao
praticarmos as obras quaresmais — a esmola, a oração, o jejum e a abstinência
de carne — entregamos a Deus tudo o que temos e somos e confiamos somente na
sua onipotência.
A
Quaresma é tempo de penitência e arrependimento, que não são caminho de
tristeza ou depressão, mas caminho de luz e de alegria, porque, se nos levam a
reconhecer a nossa verdade de pecadores, também nos abrem ao amor e à
misericórdia de Deus. O profeta, em nome de Deus, convida o povo a percorrer o
caminho da esperança, fazendo penitência; os apóstolos recebem de Deus o
ministério da reconciliação; a Igreja repete a Boa-Nova: “É este o tempo
favorável — é este o dia da salvação” (2Cor 6,2). Com todo o povo de Deus,
somos convidados a voltar atrás, a voltar-nos para o Senhor, a deixar-nos
reconciliar, a dar a Cristo ocasião de tomar sobre si o nosso pecado, porque só
Ele o conhece e pode expiar.
Santa
Quaresma para todos!
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR
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