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| Domingos Sequeira, c. 1768–1837 |
Iniciamos,
no último sábado, dia vinte e um de março, a jornada espiritual da Semana das
Dores. Este tempo especial da Igreja coloca cada fiel diante de uma escola de
fé muito específica e exigente: a escola de Maria ao pé da cruz. Enquanto a
sociedade contemporânea gasta energias imensas tentando ocultar o sofrimento,
maquiar as perdas ou fugir de qualquer desconforto emocional, a liturgia propõe
o mergulho corajoso na compaixão. Olhar para as sete dores de Nossa Senhora não
significa cultivar uma tristeza vazia ou um luto estático, mas sim aprender a
pedagogia da presença que transforma a dor em caminho de salvação. Maria ensina
que o amor verdadeiro não abandona o outro quando a escuridão chega ou quando o
peso da cruz parece insuportável. Ela permanece de pé, firme, transformando o
seu próprio sofrimento em um ato de entrega e confiança absoluta nos planos
misteriosos de Deus.
A profecia de Simeão, a fuga apressada
para o Egito e a perda angustiante de Jesus no Templo revelam que a vida da Mãe
do Redentor nunca conheceu a isenção dos sobressaltos ou das angústias reais.
Maria experimentou na própria pele a incerteza do refugiado que cruza
fronteiras sob o medo, a aflição dos pais que buscam o sentido para o futuro de
seus filhos e o aperto no peito diante do desconhecido. Essas dores de ontem
encontram um eco profundo e doloroso nas dores de hoje, nas famílias que lutam
diariamente pela sobrevivência digna, nos jovens que perdem o brilho nos olhos
para o vazio do niilismo e nos idosos que enfrentam o inverno da solidão. Ao
contemplarmos o encontro silencioso de Maria com Jesus no caminho do Calvário,
percebemos que a maior caridade que podemos oferecer a alguém que sofre é o
nosso olhar de compreensão e a nossa presença física que não recua diante da
tragédia. O silêncio de Maria comunica uma solidariedade que as palavras jamais
alcançariam.
Nesta preparação para a Semana Santa de
dois mil e vinte e seis, precisamos redescobrir a força da esperança cristã que
nunca decepciona quem nela confia. As dores de Maria não terminam no silêncio
do sepulcro, mas florescem de forma gloriosa na manhã radiante da Ressurreição.
Ela guia os nossos passos pelo deserto da Quaresma com a certeza inabalável de
que a última palavra da história humana pertence sempre à vida, à luz e à
alegria que nasce do Evangelho. Este setenário deve despertar em cada um de nós
o desejo sincero de sermos sinais vivos de consolo para os que choram e para os
que perderam a direção. Que saibamos transformar as nossas próprias feridas e
decepções em canais de graça, acolhida e serviço generoso ao próximo.
A
espiritualidade das dores de Maria convoca-nos a uma postura ativa na
construção de um mundo mais humano. Não podemos olhar para a dor da Mãe sem
enxergar a dor do irmão que padece ao nosso lado. A fé exige essa tradução
prática em gestos de misericórdia. Sob o olhar atento e amoroso de Nossa
Senhora das Dores, caminhemos unidos como povo de Deus, com o coração cheio de
coragem, rumo à luz da Páscoa que já se aproxima no horizonte. Que Maria nos
ensine a guardar tudo no coração, transformando cada lágrima em semente de um
novo tempo, onde o amor de Deus seja a medida de todas as coisas.
+Anuar
Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá (PR)

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