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Dom Anuar Batisti
Formado em filosofia no Paraná e em teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, Dom Anuar Battisti é Arcebispo Emérito de Maringá (PR). Em 15 de abril de 1998, por escolha do papa João Paulo II, foi nomeado bispo diocesano de Toledo, sendo empossado no mesmo dia da ordenação episcopal, em 20 de junho daquele ano. Em 2009 recebeu o título de Doutor Honoris Causa, um dos mais importantes, concedidos pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Em 2007, foi presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Sagrada, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 2015, foi membro do Conselho Administrativo da Pastoral da Criança Internacional e, ainda na CNBB, foi delegado suplente. No Conselho Episcopal Latino-Americano atuou como Presidente do Departamento das Vocações e Ministérios, até 2019.

A Coragem de Estar aos Pés da Cruz

 

Domingos Sequeira, c. 1768–1837

Iniciamos, no último sábado, dia vinte e um de março, a jornada espiritual da Semana das Dores. Este tempo especial da Igreja coloca cada fiel diante de uma escola de fé muito específica e exigente: a escola de Maria ao pé da cruz. Enquanto a sociedade contemporânea gasta energias imensas tentando ocultar o sofrimento, maquiar as perdas ou fugir de qualquer desconforto emocional, a liturgia propõe o mergulho corajoso na compaixão. Olhar para as sete dores de Nossa Senhora não significa cultivar uma tristeza vazia ou um luto estático, mas sim aprender a pedagogia da presença que transforma a dor em caminho de salvação. Maria ensina que o amor verdadeiro não abandona o outro quando a escuridão chega ou quando o peso da cruz parece insuportável. Ela permanece de pé, firme, transformando o seu próprio sofrimento em um ato de entrega e confiança absoluta nos planos misteriosos de Deus.

         A profecia de Simeão, a fuga apressada para o Egito e a perda angustiante de Jesus no Templo revelam que a vida da Mãe do Redentor nunca conheceu a isenção dos sobressaltos ou das angústias reais. Maria experimentou na própria pele a incerteza do refugiado que cruza fronteiras sob o medo, a aflição dos pais que buscam o sentido para o futuro de seus filhos e o aperto no peito diante do desconhecido. Essas dores de ontem encontram um eco profundo e doloroso nas dores de hoje, nas famílias que lutam diariamente pela sobrevivência digna, nos jovens que perdem o brilho nos olhos para o vazio do niilismo e nos idosos que enfrentam o inverno da solidão. Ao contemplarmos o encontro silencioso de Maria com Jesus no caminho do Calvário, percebemos que a maior caridade que podemos oferecer a alguém que sofre é o nosso olhar de compreensão e a nossa presença física que não recua diante da tragédia. O silêncio de Maria comunica uma solidariedade que as palavras jamais alcançariam.

         Nesta preparação para a Semana Santa de dois mil e vinte e seis, precisamos redescobrir a força da esperança cristã que nunca decepciona quem nela confia. As dores de Maria não terminam no silêncio do sepulcro, mas florescem de forma gloriosa na manhã radiante da Ressurreição. Ela guia os nossos passos pelo deserto da Quaresma com a certeza inabalável de que a última palavra da história humana pertence sempre à vida, à luz e à alegria que nasce do Evangelho. Este setenário deve despertar em cada um de nós o desejo sincero de sermos sinais vivos de consolo para os que choram e para os que perderam a direção. Que saibamos transformar as nossas próprias feridas e decepções em canais de graça, acolhida e serviço generoso ao próximo.

A espiritualidade das dores de Maria convoca-nos a uma postura ativa na construção de um mundo mais humano. Não podemos olhar para a dor da Mãe sem enxergar a dor do irmão que padece ao nosso lado. A fé exige essa tradução prática em gestos de misericórdia. Sob o olhar atento e amoroso de Nossa Senhora das Dores, caminhemos unidos como povo de Deus, com o coração cheio de coragem, rumo à luz da Páscoa que já se aproxima no horizonte. Que Maria nos ensine a guardar tudo no coração, transformando cada lágrima em semente de um novo tempo, onde o amor de Deus seja a medida de todas as coisas.

+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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