Na quinta etapa do nosso caminho quaresmal, a Palavra de Deus
continua a desafiar-nos à conversão, ao reencontro com Deus, à vida nova.
Este é o tempo de desatar os nós que nos prendem à morte, de sair dos
cantos sombrios do nosso comodismo e de abraçar aquela oferta irrecusável
de vida que Deus insistentemente nos faz. Hoje estamos diante do sétimo e
último dos sinais de Jesus no Evangelho escrito por São João. Os sinais
querem indicar uma realidade mais profunda, e também aqui, na
ressurreição do amigo Lázaro, Jesus revela quem é Deus, mostrando o
sentido de sua missão e as exigências feitas a seus seguidores e seguidoras.
Na primeira leitura – Ez 37,12-14 –, através da voz profética de
Ezequiel, Javé promete aos habitantes de Judá exilados numa terra
estrangeira, desesperados e sem futuro, uma vida nova. A leitura faz parte
da cena dos ossos ressequidos, que mostra a situação de Israel no exílio da
Babilônia. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu
povo” – diz-lhes Deus. O desígnio de Deus para os seus queridos filhos é e
sempre será um desígnio de vida; por isso, Ele nunca deixará de vir ao
encontro do seu povo e de o guiar, pela sua própria mão, até às fontes da
vida eterna. A promessa de vida nova começa com a ação de Deus, que
anuncia uma transformação profunda, um despertar da morte para a vida. O
termo hebraico ruah – espírito –, corresponde ao grego pneuma, revela
mais que um simples sopro. É o princípio vital, a energia divina que
revigora, anima e sustenta. Indica o princípio vital e a forma animadora que
Deus insufla para dar vida, ressuscitar e renovar. A presença do espírito em
nós não é apenas um dom futuro, mas uma realidade presente, capaz de
renovar todo o ser. Quando já não resta esperança, o espírito de Deus sopra
e a recria novamente, no coração do povo.
O Evangelho – Jo 11,1-45 – oferece-nos – a partir da história de um
amigo de Jesus chamado Lázaro – uma magnífica catequese sobre o projeto
de vida que Deus tem para o homem. Diz-nos que Jesus veio ao nosso
encontro, enviado por Deus, para nos oferecer uma vida que a morte nunca
poderá vencer. Àqueles que manifestam interesse em acolher essa vida,
Jesus garante-lhes: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em
Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em
Mim, nunca morrerá”. Chegamos à vida se ousarmos seguir atrás de Jesus,
como discípulos. Jesus se revela como a Ressurreição e a Vida. Ele não fala
de algo distante, mas de um presente que se manifesta na fé e na confiança.
A palavra grega zõe – vida – destaca a dimensão plena e eterna da vida que
Jesus oferece. Essa vida não se limita ao tempo que vivemos, mas se
estende para além, inaugurando a eternidade no hoje. Ao ouvir Jesus, Marta
reconhece que, mesmo diante da morte, há esperança.
A morte de Lázaro, porém, devia servir para Jesus se revelar como a
própria Ressurreição e a Vida. A resposta a essa revelação vem de Marta,
uma mulher, a primeira pessoa no Evangelho segundo São João a professar
a fé em Jesus como Messias enviado por Deus – nos outros Evangelhos,
esse papel cabe a São Pedro –. E o encontro com Jesus, sempre
transformador, leva Marta a procurar a Maria. Maria chora, todos choram.
Jesus se comove – por três vezes – e também chora. Seu choro é o choro de
Deus com a ausência de vida. É Deus chorando com a humanidade que
sofre e chora.
O Deus de Jesus é capaz de trazer de volta à vida, desatar os panos
que impedem o morto de sair do sepulcro e caminhar por conta própria. A
fé na vida eterna passa, portanto, pelo nosso empenho nas ressurreições do
dia a dia. Com a fé em Jesus – a Ressurreição e a Vida –, tantas pedras
podem ser hoje removidas e tantas vidas restauradas. Essas pedras podem
ter tantos nomes, como a ressignificação, a desesperança, o preconceito ou
a falta de solidariedade. Jesus continua ordenando para todos nós:
“removam a pedra!”.
Na segunda leitura – Rm 8,8-11 – o apóstolo Paulo convida os
cristãos de Roma – e os discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares –
a relembrarem o compromisso que assumiram no dia do seu batismo e a
viverem sob o domínio “do Espírito”. Aqueles que escolheram Cristo e que
vivem no Espírito, pertencem a Deus e integram a família de Deus. Estão
destinados à vida eterna, à vida plena e verdadeira. O Espírito daquele que
ressuscitou Jesus habita em nós. Isso significa que não somos mais
escravos da carne, daquilo que impede a vida plena. O Espírito nos dá a
capacidade de viver, segundo o mesmo Espírito, uma existência marcada
pela liberdade, pela esperança e pela força interior que supera a morte. Pelo
batismo, o Espírito nos torna novas criaturas, pertencentes a Cristo
ressuscitado.
O Espírito de Deus, que mora em nós, convoca-nos para caminhar
desvencilhados dos laços mortais da descrença e do egoísmo. Com Marta e
Maria, professemos nossa fé em Cristo Jesus, ressurreição e vida plena para
todos os que se deixam iluminar por sua Palavra que nos livra das situações
de desânimo. Peçamos as luzes divinas que nos encoraja a viver segundo o
Espírito Santo que nos consola para contemplar Jesus como a ressurreição e
a vida!
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR
Crédito da imagem:
Ressurreição de Lázaro, por Giotto de Bondone, c.1266–1337.
Acervo da Capela Scrovegni, em Pádua, Itália

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