Irmãos e irmãs, ao
chegarmos à Quarta-feira da Semana Santa, a liturgia nos faz entrar ainda mais
profundamente no mistério da Paixão. Tradicionalmente, este dia é marcado pela
contemplação das dores da Virgem Maria, aquela que permaneceu de pé junto à
cruz. Se nos dias anteriores fomos conduzidos ao encontro com Cristo, hoje
somos convidados a olhar para quem melhor soube acompanhá-lo: sua Mãe.
O Evangelho do dia, segundo Evangelho de Mateus (cf. Mt 26,14-25), apresenta
o momento em que Judas decide trair Jesus: “Quanto me dareis se eu o
entregar?” (Mt 26,15). É o início explícito da entrega do Senhor. E,
enquanto a traição se organiza, Maria permanece fiel, silenciosa, unida ao
sofrimento do Filho. Aqui já aparece um contraste profundo: de um lado, a
infidelidade que vende; de outro, a fidelidade que sofre e permanece.
A primeira leitura, do profeta Isaías
(cf. Is 50,4-9a), retoma a figura do Servo Sofredor, que não recua diante das
afrontas: “Apresentei o rosto duro como pedra” (Is 50,7). Este Servo é
Cristo, mas Maria participa intimamente desse sofrimento. Ela não é a
redentora, mas é a Mãe que se une à redenção, oferecendo o próprio Filho.
Contemplar Nossa Senhora das Dores não
é apenas recordar um sofrimento passado, mas entrar num mistério profundamente
atual: o sofrimento vivido com fé. Maria não compreende tudo de modo imediato —
desde a profecia de Simeão: “Uma espada transpassará a tua alma” (cf. Lc
2,35) —, mas permanece fiel. Sua dor não é desespero, é confiança.
A tradição da Igreja nos fala das dores
de Maria: a profecia de Simeão, a fuga para o Egito, a perda do Menino Jesus, o
encontro no caminho do Calvário, a crucifixão, a descida da cruz e o
sepultamento. Em cada uma dessas dores, Maria não abandona. Ela permanece.
E aqui está o centro deste sermão: a
fidelidade no sofrimento.
Enquanto Judas calcula e negocia, Maria
se entrega. Enquanto os discípulos vacilam, Maria permanece. Enquanto muitos
fogem da cruz, Maria se aproxima dela.
Irmãos e irmãs, há uma tentação
constante em nossa vida espiritual: querer seguir a Cristo sem passar pela
cruz. Mas Maria nos ensina que não existe discipulado verdadeiro sem
participação no sofrimento redentor. Não se trata de buscar a dor por si mesma,
mas de não fugir dela quando ela se apresenta unida à vontade de Deus.
O que mais impressiona em Nossa Senhora
das Dores não é apenas o quanto ela sofreu, mas como ela sofreu:
com fé, com silêncio, com esperança. Ela não grita, não revolta, não abandona.
Ela confia.
E isso nos interpela diretamente.
Diante das nossas dores, qual é a nossa atitude? Revolta? Fuga? Desânimo? Ou
confiança?
A Quarta-feira Santa nos coloca diante
de duas figuras: Judas e Maria. Judas representa o fechamento, o cálculo, a
ruptura. Maria representa a abertura, a entrega, a fidelidade. E nós somos
chamados a escolher.
Estamos às portas do Tríduo Pascal. A
cruz já se projeta no horizonte. E a Igreja, com sabedoria, nos coloca ao lado
de Maria, para que aprendamos a permanecer.
Que, nesta Semana Santa, possamos nos
aproximar de Nossa Senhora das Dores e aprender com ela. Que, diante das cruzes
da vida, não fujamos, mas permaneçamos com fé. Que saibamos confiar mesmo
quando não entendemos, amar mesmo quando dói, e esperar mesmo quando tudo
parece perdido.
Porque Maria nos ensina que a dor,
quando unida a Cristo, não é o fim — é caminho de redenção.
Que ela, Mãe das Dores, nos acompanhe e
nos sustente, para que também nós possamos permanecer firmes junto à cruz, na
certeza de que, depois da Sexta-feira Santa, vem a manhã da Ressurreição.
Amém.
+Dom
Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
Mater Dolorosa, por Carlo Dolci, c.1616–1686.
Coleção do Museu Nacional de Arte Ocidental, em Tóquio, no Japão

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