Irmãos e irmãs, com esta celebração
entramos no coração do mistério pascal. A Missa da Ceia do Senhor não é apenas
uma recordação da última refeição de Jesus com os seus discípulos, mas a
atualização sacramental do amor que se entrega “até o fim” (cf. Jo 13,1). Hoje
contemplamos três grandes dons que a Igreja recebe: a Eucaristia, o sacerdócio
e o mandamento do amor.
A primeira leitura, do livro do Êxodo
(cf. Ex 12,1-8.11-14), nos coloca diante da Páscoa judaica. O sangue do
cordeiro, colocado nos umbrais das portas, era sinal de libertação. O povo era
salvo da morte e iniciado num caminho de liberdade. Este rito não era apenas
memória, mas memorial: cada geração era chamada a reviver aquele acontecimento
como atual.
É exatamente isso que Jesus realiza na Última
Ceia. Ele dá um novo sentido à Páscoa. Já não é mais o cordeiro do Êxodo, mas
Ele próprio que se oferece. Como nos recorda São Paulo: “Isto é o meu corpo
que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24). E ainda: “Este
cálice é a nova aliança no meu sangue” (1Cor 11,25). Aqui está o centro da
nossa fé: Cristo se faz alimento, se entrega, permanece conosco.
A Eucaristia não é símbolo vazio, nem
simples recordação. É presença real. É o próprio Cristo que se dá. E isso exige
de nós uma resposta séria. Não se pode comungar de qualquer maneira, sem
consciência, sem fé, sem conversão. Participar da Eucaristia implica entrar na
lógica da entrega.
O Evangelho desta noite, segundo Evangelho de João (cf. Jo 13,1-15), não narra a
instituição da Eucaristia, mas apresenta o gesto do lava-pés. E isso não é por
acaso. São João quer nos mostrar o significado profundo da Eucaristia: ela se
traduz em serviço.
Jesus, o Senhor e Mestre, levanta-se da
mesa, tira o manto, ajoelha-se e lava os pés dos discípulos. É um gesto
escandaloso. Pedro resiste: “Tu nunca me lavarás os pés!” (Jo 13,8). Mas
Jesus responde: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Ou seja,
não se pode seguir Cristo sem aceitar ser servido por Ele — e sem aprender a
servir.
Aqui está uma verdade fundamental: não
há Eucaristia sem caridade. Não há comunhão com Cristo sem serviço ao próximo.
Podemos participar da Missa, receber o
Corpo de Cristo, mas, se não formos capazes de nos abaixar diante dos outros,
de servir, de perdoar, de nos doar, então nossa participação se torna
incoerente.
O gesto do lava-pés desmonta qualquer
ideia de poder dentro da Igreja. Autoridade, no Evangelho, é serviço. Grandeza
é humildade. Seguir Cristo é descer, não subir.
Irmãos e irmãs, esta celebração também
nos recorda o dom do sacerdócio. Foi na Última Ceia que Jesus confiou à Igreja
a missão de celebrar a Eucaristia: “Fazei isto em memória de mim” (Lc
22,19). O sacerdote existe para isso: para tornar presente o sacrifício de
Cristo, para alimentar o povo de Deus.
Mas também aqui é preciso clareza: o
sacerdote não é dono da Eucaristia. Ele é servo. Seu ministério só tem sentido
se estiver unido à lógica do lava-pés, à lógica da entrega.
Ao final desta celebração, o Santíssimo
será levado em procissão e teremos um momento de adoração. A Igreja nos convida
a permanecer com o Senhor, a vigiar com Ele. É o início da noite do Getsêmani.
E aqui surge uma última pergunta: somos
capazes de permanecer com Cristo? Ou também nós adormecemos, fugimos, nos
afastamos?
A Quinta-feira Santa não permite
superficialidade. Ela nos coloca diante do essencial: um Deus que se faz
alimento, que se ajoelha, que serve, que se entrega até a morte.
Diante disso, não basta admirar. É
preciso responder.
Que, ao participarmos desta Eucaristia,
possamos renovar nossa fé na presença real de Cristo. Que aprendamos com Ele o
caminho do serviço. E que tenhamos a coragem de viver o mandamento novo: “Amai-vos
uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).
Assim, alimentados pelo Corpo de Cristo
e transformados pelo seu amor, possamos ser, no mundo, sinal vivo da sua
presença.
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
A Última Ceia,
por Juan de Juanes, c.–1579.
Coleção do Museu do Prado, em Madrid, Espanha

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