Irmãos e irmãs, às três horas da tarde,
a Igreja se detém em silêncio. É a hora em que, segundo a tradição, o Senhor
entregou a sua vida na cruz. Não nos reunimos para uma missa, mas para a solene
Ação Litúrgica da Paixão do Senhor. O altar está despojado, não há consagração
eucarística; tudo nos conduz ao essencial: contemplar o mistério da
cruz.
A primeira leitura, do profeta Isaías,
apresenta-nos o Servo Sofredor: “Ele foi ferido por causa de nossas
transgressões, esmagado por causa de nossas culpas… e pelas suas chagas fomos
curados” (Is 53,5). Aqui está o centro da fé cristã: o sofrimento de Cristo
não é inútil, não é absurdo — é redentor. Ele carrega aquilo que era nosso.
O Salmo responsorial ecoa o grito do
justo sofredor: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Sl
30[31],6). Este não é um grito de desespero, mas de confiança. Mesmo na dor
extrema, permanece a entrega ao Pai.
A Carta aos Hebreus nos conduz ainda
mais profundamente: “Temos um sumo sacerdote que é capaz de se compadecer de
nossas fraquezas” (Hb 4,15). Cristo não está distante. Ele conhece o
sofrimento humano por dentro. E mais: “tornou-se causa de salvação eterna
para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9). Sua obediência até a morte
transforma a cruz em caminho de vida.
E então chegamos ao relato da Paixão
segundo o Evangelho de João (cf. Jo 18,1 –
19,42). São João nos apresenta um Cristo soberano, mesmo na dor. Ele não é
simplesmente arrastado pelos acontecimentos — Ele se entrega. Quando diz “Tudo
está consumado” (Jo 19,30), não é um lamento, mas a proclamação de que a
missão foi cumprida até o fim.
Na cruz, vemos algo que o mundo não
compreende: um Deus que vence não pela força, mas pelo amor; não pela
imposição, mas pela entrega. A cruz, que era instrumento de morte e vergonha, torna-se
o lugar da glorificação.
Irmãos e irmãs, há um ponto que precisa
ser dito com clareza: a cruz revela não apenas o amor de Deus, mas também a
realidade do pecado. Não se trata de uma ideia abstrata. A cruz mostra o peso
concreto do mal, da injustiça, da rejeição de Deus. Contemplar a cruz sem
reconhecer isso é esvaziar o seu significado.
Mas a cruz não nos deixa na culpa — ela
nos abre à graça. O mesmo Cristo que é crucificado é aquele que oferece perdão,
que reconcilia, que restaura.
Hoje, a liturgia nos convida a três
atitudes concretas.
Primeiro, escutar.
Escutar a Palavra da Paixão não como um relato distante, mas como algo que nos
envolve. Cada personagem, cada gesto, cada silêncio nos interpela.
Segundo, rezar. A
grande oração universal que faremos expressa a amplitude da redenção: a Igreja
reza por todos — pela Igreja, pelo Papa, pelos fiéis, pelos catecúmenos, pelos
que não creem. A cruz é para todos.
Terceiro, adorar. A
veneração da cruz não é um gesto simbólico vazio. Ao nos aproximarmos,
reconhecemos ali o instrumento da nossa salvação. Beijar a cruz é professar a
fé naquele que morreu por nós.
Vivemos em um tempo que rejeita a dor e
busca eliminar qualquer forma de sofrimento. Mas a Sexta-feira Santa nos obriga
a encarar uma verdade: o amor verdadeiro passa pela entrega. Não há
cristianismo sem cruz.
E, no entanto, é preciso dizer com
firmeza: a cruz não é o fim. Hoje ainda não cantamos a vitória, mas já sabemos
que ela virá. O silêncio deste dia é carregado de esperança.
Irmãos e irmãs, ao sairmos desta
celebração, levemos conosco não apenas a lembrança de um sofrimento, mas a
certeza de um amor levado até o extremo.
Que, diante da cruz, cada um de nós
faça a sua escolha: permanecer indiferente ou acolher esse amor e deixar-se
transformar por ele.
“Eis o madeiro da cruz, do qual
pendeu a salvação do mundo.”
Venhamos, adoremos.
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
Cristo
crucificado, por Diego Velázquez, c.1599–1660 (recorte).
Coleção do Museu do Prado, em Madrid, Espanha

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