![]() |
A liturgia da festa litúrgica de Santa Rita de Cássia, neste dia
22 de maio de 2026, nos convida a uma profunda reflexão sobre a natureza do
seguimento cristão e as suas implicações na nossa vida cotidiana. Ao
celebrarmos a memória de Santa Rita de Cássia, não olhamos apenas para uma
figura histórica do passado, mas para um testemunho contundente de como o
Evangelho se encarna na realidade do sofrimento humano. Para compreendermos a
magnitude da vida desta mulher, precisamos primeiro analisar os textos sagrados
que a Igreja nos propõe. Eles nos fornecem a chave de leitura para interpretar a
trajetória dessa grande santa.
A Certeza da Ressurreição e o Chamado ao Amor. Na Primeira Leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos
(25,13b-21), observamos a situação de Paulo, mantido prisioneiro e julgado
pelas autoridades do Império Romano. O governador Festo resume a acusação
contra o apóstolo perante o rei Agripa de forma irônica, mas teologicamente
precisa: a disputa girava em torno de "um certo Jesus que já morreu, mas
que Paulo afirma estar vivo". Esta constatação externa é, na verdade, a
síntese da nossa fé. Paulo suporta as correntes, o cárcere e a ameaça de morte
porque tem a convicção absoluta de que Cristo venceu o sepulcro. A ressurreição
não é uma teoria; é um fato histórico que altera a compreensão de toda a
existência.
Essa vitalidade inabalável de Cristo é o que fundamenta o
diálogo decisivo relatado no Evangelho de João (21,15-19). Jesus ressuscitado
não cobra de Pedro um plano estratégico de ação, mas pergunta-lhe três vezes
sobre a sua disposição interior: "Tu me amas?". A tríplice confissão
de amor de Pedro atua como um remédio que cura a sua tríplice negação durante o
período da paixão. O resultado prático desse amor é uma missão pastoral direta:
"Apascenta as minhas ovelhas". O amor a Deus exige o cuidado concreto
com o próximo. Além disso, Jesus avisa que esse seguimento culminará na perda
da própria autonomia, indicando o futuro martírio de Pedro. Amar a Cristo
significa estar disposto a entregar tudo, renunciando ao próprio querer.
O Testemunho de Santa Rita: Apascentar na Dor. Quando analisamos a biografia de Santa Rita, nascida no ano de
1381 num canto remoto da Úmbria, em Roccaporena, percebemos que ela é a
tradução exata dessas duas leituras bíblicas. Rita não é uma lenda intocável;
ela apresenta o rosto humaníssimo de quem viveu a certeza de que Jesus está
vivo e respondeu ao "Tu me amas?" em circunstâncias domésticas e sociais
extremas. O texto sobre a sua vida nos mostra, primeiramente, o seu cuidado no
ambiente familiar. Rita abdicou do seu forte desejo de vida religiosa em
obediência à autoridade de seus velhos pais. Casou-se com Paulo de Ferdinando,
um jovem de temperamento violento e irrequieto. Em vez de responder à
agressividade com mais hostilidade, ela assumiu a missão de
"apascentar" aquele coração endurecido. Com doçura, atenção para não
ferir suscetibilidades, oração e um sofrimento suportado em silêncio, ela provocou
uma mudança genuína nos costumes do marido. O amor radical suportou e converteu
o agressor, quebrando o ciclo imediato de violência.
A fé na ressurreição, a mesma que movia o apóstolo Paulo diante
do tribunal, definiu também a atitude mais difícil da vida de Rita. Após o
assassinato de seu marido, motivado por velhos rancores de inimigos, os seus
dois filhos decidiram vingar a morte do pai. Ao perceber a inutilidade dos seus
esforços humanos para dissuadi-los, Rita orou para que Deus chamasse ambos a si
antes que eles se manchassem com o crime de homicídio. Analisada sob uma ótica
puramente humana, trata-se de uma prece incompreensível. Contudo, sob a ótica
da eternidade, é a atitude de uma mãe que prioriza a salvação definitiva das
almas de seus filhos em detrimento da mera continuidade da vida biológica. Ela
agiu com a certeza de que a verdadeira vida está no Senhor.
A Configuração à Cruz e a Missão Contínua: Sem marido e sem filhos, Rita procurou o Convento das Agostinianas
de Cássia. A sua entrada, após recusas institucionais, ocorreu de forma
extraordinária com a intercessão de seus santos protetores: São João Batista,
Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino. As portas trancadas por correntes
não impediram o propósito divino, evidenciando que, quando o ser humano se
esvazia de si, a graça atua livremente.
No interior do convento, a resposta de Rita ao chamado de Cristo
atingiu o seu estágio de maturidade plena. Ela dedicou-se integralmente à
penitência e à oração. Jesus havia afirmado a Pedro que, na velhice, outro o
cingiria. A vida de Rita seguiu esse exato caminho de configuração à paixão do
Mestre. Durante um momento de êxtase, ela recebeu visivelmente um espinho da
coroa de Cristo impresso em sua testa. Essa dolorosíssima chaga purulenta marcou
o seu rosto durante catorze longos anos.
A análise desse estigma físico nos demonstra que Rita não
utilizou a sua intimidade com Deus para pedir privilégios ou alívio pessoal. A
fama de sua santidade, que transpassou os muros do rigoroso mosteiro, originou-se
do fato de que ela vestia as dores para aliviar o sofrimento do próximo,
obtendo prodigiosas curas e inúmeras conversões. Ela não passou indiferente
diante da miséria material, moral e social de sua época.
O legado de Santa Rita, canonizada em 1900, e a firme mensagem
da liturgia de hoje convergem diretamente para um único ponto de reflexão: o
autêntico cristianismo exige a coragem de amar até as últimas consequências.
Fomos chamados a enfrentar a violência com a paz, a divisão com o perdão e o
sofrimento com a esperança irrevogável naquele que vive para sempre. Que
possamos, no nosso dia a dia, apascentar as ovelhas que Deus nos confiou,
suportando as provações com a mesma fé que sustentou Paulo, Pedro e a nossa
querida Santa Rita de Cássia.
Caminhemos juntos, sempre movidos pela esperança cristã que o Ressuscitado
nos oferece diuturnamente na vida, no trabalho e na ação apostólica-missionária.
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

Comentários
Postar um comentário