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Dom Anuar Batisti
Formado em filosofia no Paraná e em teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, Dom Anuar Battisti é Arcebispo Emérito de Maringá (PR). Em 15 de abril de 1998, por escolha do papa João Paulo II, foi nomeado bispo diocesano de Toledo, sendo empossado no mesmo dia da ordenação episcopal, em 20 de junho daquele ano. Em 2009 recebeu o título de Doutor Honoris Causa, um dos mais importantes, concedidos pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Em 2007, foi presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Sagrada, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 2015, foi membro do Conselho Administrativo da Pastoral da Criança Internacional e, ainda na CNBB, foi delegado suplente. No Conselho Episcopal Latino-Americano atuou como Presidente do Departamento das Vocações e Ministérios, até 2019.

A Coragem do Amor Radical: Reflexões sobre Santa Rita e a Liturgia da Vida

 

A liturgia da festa litúrgica de Santa Rita de Cássia, neste dia 22 de maio de 2026, nos convida a uma profunda reflexão sobre a natureza do seguimento cristão e as suas implicações na nossa vida cotidiana. Ao celebrarmos a memória de Santa Rita de Cássia, não olhamos apenas para uma figura histórica do passado, mas para um testemunho contundente de como o Evangelho se encarna na realidade do sofrimento humano. Para compreendermos a magnitude da vida desta mulher, precisamos primeiro analisar os textos sagrados que a Igreja nos propõe. Eles nos fornecem a chave de leitura para interpretar a trajetória dessa grande santa.

A Certeza da Ressurreição e o Chamado ao Amor. Na Primeira Leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos (25,13b-21), observamos a situação de Paulo, mantido prisioneiro e julgado pelas autoridades do Império Romano. O governador Festo resume a acusação contra o apóstolo perante o rei Agripa de forma irônica, mas teologicamente precisa: a disputa girava em torno de "um certo Jesus que já morreu, mas que Paulo afirma estar vivo". Esta constatação externa é, na verdade, a síntese da nossa fé. Paulo suporta as correntes, o cárcere e a ameaça de morte porque tem a convicção absoluta de que Cristo venceu o sepulcro. A ressurreição não é uma teoria; é um fato histórico que altera a compreensão de toda a existência.

Essa vitalidade inabalável de Cristo é o que fundamenta o diálogo decisivo relatado no Evangelho de João (21,15-19). Jesus ressuscitado não cobra de Pedro um plano estratégico de ação, mas pergunta-lhe três vezes sobre a sua disposição interior: "Tu me amas?". A tríplice confissão de amor de Pedro atua como um remédio que cura a sua tríplice negação durante o período da paixão. O resultado prático desse amor é uma missão pastoral direta: "Apascenta as minhas ovelhas". O amor a Deus exige o cuidado concreto com o próximo. Além disso, Jesus avisa que esse seguimento culminará na perda da própria autonomia, indicando o futuro martírio de Pedro. Amar a Cristo significa estar disposto a entregar tudo, renunciando ao próprio querer.

O Testemunho de Santa Rita: Apascentar na Dor. Quando analisamos a biografia de Santa Rita, nascida no ano de 1381 num canto remoto da Úmbria, em Roccaporena, percebemos que ela é a tradução exata dessas duas leituras bíblicas. Rita não é uma lenda intocável; ela apresenta o rosto humaníssimo de quem viveu a certeza de que Jesus está vivo e respondeu ao "Tu me amas?" em circunstâncias domésticas e sociais extremas. O texto sobre a sua vida nos mostra, primeiramente, o seu cuidado no ambiente familiar. Rita abdicou do seu forte desejo de vida religiosa em obediência à autoridade de seus velhos pais. Casou-se com Paulo de Ferdinando, um jovem de temperamento violento e irrequieto. Em vez de responder à agressividade com mais hostilidade, ela assumiu a missão de "apascentar" aquele coração endurecido. Com doçura, atenção para não ferir suscetibilidades, oração e um sofrimento suportado em silêncio, ela provocou uma mudança genuína nos costumes do marido. O amor radical suportou e converteu o agressor, quebrando o ciclo imediato de violência.

A fé na ressurreição, a mesma que movia o apóstolo Paulo diante do tribunal, definiu também a atitude mais difícil da vida de Rita. Após o assassinato de seu marido, motivado por velhos rancores de inimigos, os seus dois filhos decidiram vingar a morte do pai. Ao perceber a inutilidade dos seus esforços humanos para dissuadi-los, Rita orou para que Deus chamasse ambos a si antes que eles se manchassem com o crime de homicídio. Analisada sob uma ótica puramente humana, trata-se de uma prece incompreensível. Contudo, sob a ótica da eternidade, é a atitude de uma mãe que prioriza a salvação definitiva das almas de seus filhos em detrimento da mera continuidade da vida biológica. Ela agiu com a certeza de que a verdadeira vida está no Senhor.

A Configuração à Cruz e a Missão Contínua: Sem marido e sem filhos, Rita procurou o Convento das Agostinianas de Cássia. A sua entrada, após recusas institucionais, ocorreu de forma extraordinária com a intercessão de seus santos protetores: São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino. As portas trancadas por correntes não impediram o propósito divino, evidenciando que, quando o ser humano se esvazia de si, a graça atua livremente.

No interior do convento, a resposta de Rita ao chamado de Cristo atingiu o seu estágio de maturidade plena. Ela dedicou-se integralmente à penitência e à oração. Jesus havia afirmado a Pedro que, na velhice, outro o cingiria. A vida de Rita seguiu esse exato caminho de configuração à paixão do Mestre. Durante um momento de êxtase, ela recebeu visivelmente um espinho da coroa de Cristo impresso em sua testa. Essa dolorosíssima chaga purulenta marcou o seu rosto durante catorze longos anos.

A análise desse estigma físico nos demonstra que Rita não utilizou a sua intimidade com Deus para pedir privilégios ou alívio pessoal. A fama de sua santidade, que transpassou os muros do rigoroso mosteiro, originou-se do fato de que ela vestia as dores para aliviar o sofrimento do próximo, obtendo prodigiosas curas e inúmeras conversões. Ela não passou indiferente diante da miséria material, moral e social de sua época.

O legado de Santa Rita, canonizada em 1900, e a firme mensagem da liturgia de hoje convergem diretamente para um único ponto de reflexão: o autêntico cristianismo exige a coragem de amar até as últimas consequências. Fomos chamados a enfrentar a violência com a paz, a divisão com o perdão e o sofrimento com a esperança irrevogável naquele que vive para sempre. Que possamos, no nosso dia a dia, apascentar as ovelhas que Deus nos confiou, suportando as provações com a mesma fé que sustentou Paulo, Pedro e a nossa querida Santa Rita de Cássia.

Caminhemos juntos, sempre movidos pela esperança cristã que o Ressuscitado nos oferece diuturnamente na vida, no trabalho e na ação apostólica-missionária.

 Com minha bênção paterna e afeto fraterno,

 +Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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