Pedro e Paulo, dois grandes
apóstolos, dos quais suas vocações e missões se complementam, como no duplo
movimento de um coração pulsante: a firmeza institucional de Pedro e o ardor
missionário de Paulo, uma complementariedade que se encarna perfeitamente no
coração de cada lar cristão. Isto porque a família, como nos lembra o Concílio Ecumênico
Vaticano II, é a Igreja Doméstica.
E, como Igreja, cada família é chamada a viver o seu papel ad intra, na
fidelidade de Pedro, e ad extra, na ousadia de Paulo.
Olhando para Pedro, contemplamos
a rocha, a estrutura, a ordem e a transmissão fiel da fé. Na vida familiar, a
dimensão ad intra representa o resgate da Igreja Doméstica como essa
instituição sagrada de comunhão e estabilidade. O caráter institucional, quando
transposto para o lar, perde qualquer tom burocrático e ganha a beleza da
fidelidade cotidiana. A família é o primeiro espaço onde a fé ganha
"corpo" e rotina santa. É na solidez de Pedro que a família constrói suas
fundações.
A
começar pela transmissão da Tradição. É na mesa do jantar, nas orações antes de dormir e
no testemunho dos pais que os filhos aprendem quem é Deus. A fé deixa de ser
uma teoria e se torna uma herança viva. Logo o altar em torno do qual se reúne a comunidade, se estende para o altar em
torno qual se reúne a família, lá onde a Igreja Doméstica possui
a sua própria "liturgia" de cada dia: o perdão após uma briga, a
partilha do pão sem que a nenhum falte a comida, o cultivo das virtudes e o respeito
mútuo valorizando desde a infância as boas obras que levam ao Céu. Enfim, o refúgio seguro, que a assim como a
Igreja institucional guarda a verdade e acolhe os fiéis, o lar serve de rocha
onde cada membro da família sabe que, não importa o quão difícil esteja vida,
ali há um porto seguro de amor e fraternidade.
Sem essa solidez ad intra,
sem esse cuidado com as próprias raízes e com a vida de oração interna, a
família se fragiliza e desmorona diante das tempestades do mundo. Mas a Igreja
Doméstica não se fecha em si mesma, tornando-se uma fortaleza egoísta. É aqui
que São Paulo nos provoca com a sua dimensão ad extra. Paulo é o
apóstolo da urgência do anúncio, aquele que nos lembra que o Querigma, a boa nova de que Cristo nos
ama, morreu e ressuscitou por nós, precisa ser anunciado a toda criatura.
A família cristã é, por natureza,
uma Igreja em saída. A sua
fertilidade não se esgota nos filhos de sangue; ela transborda para o mundo. A
vertente externa da família se manifesta quando o lar se torna um farol para a
sociedade, sobretudo em um mundo marcado pelo individualismo e pela fragilidade
dos vínculos, uma família que se ama, que supera as crises com fé e que vive a
alegria do Evangelho é, por si só, um anúncio querigmático vivo.
Pela
hospitalidade e pela caridade, a família em saída abre suas portas para acolher o
amigo que sofre, o vizinho solitário, o parente afastado. Ela se engaja na
comunidade, na paróquia, nos movimentos sociais e no cuidado com os mais
pobres. Já pela missão no cotidiano os
pais, no ambiente de trabalho, os filhos na escola e na universidade são os
"paulos" de hoje, levando a Verdade do Evangelho para os areópagos
modernos. Tamanha é esta missão, a da família, que se a mesma esquece Pedro,
ela perde a identidade e se desfaz, e se esquece Paulo, ela se isola no egoísmo
e sufoca a sua missão.
Meus irmãos, São Pedro e São
Paulo deram a vida por Cristo em Roma, regando com o mesmo sangue o solo da
Igreja. Eles nos ensinam que o amor a Deus se faz na fidelidade de quem guarda
a fé e na generosidade de quem a distribui. Que as nossas famílias olhem para
Pedro e descubram a beleza de ser Igreja Doméstica: firme na oração, na Palavra
e no amor interno. E que olhem para Paulo e descubram a coragem de ser Igreja
em saída: sem medo de testemunhar, de acolher e de anunciar que Jesus Cristo é
o Senhor, e que o Espírito Santo acenda em cada lar o equilíbrio perfeito entre
a rocha que sustenta e os pés que caminham rumo à nova civilização.
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR
Crédito da imagem:
Ícone do século XII representando o abraço de
São Pedro e São Paulo.
Segundo a tradição, os dois santos se encontraram e se abraçaram nos
arredores de Roma antes de seguirem para seus respectivos martírios.

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