A
Solenidade de Corpus Christi é a manifestação pública de adoração de todos os
católicos a Jesus presente realmente na Eucaristia. Esta Solenidade foi
instituída, primeiramente, na Diocese de Liège – Bélgica –, em 1246. O Papa Urbano
IV (1261-1264) estendeu-a à Igreja universal. É celebrada na quinta-feira após a
Solenidade da Santíssima Trindade. Na celebração de Corpus Christi,
os fiéis rendem graças a Deus pelo inestimável dom da Eucaristia, na qual o
próprio Senhor Jesus se dá a nós como alimento de vida eterna. A Eucaristia é
fonte e centro de toda a vida cristã. Portanto, proclama-se, neste dia, a fé na
presença real de Jesus Cristo nos dons eucarísticos: “Na Última Ceia, na noite
em que seria traído, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu
Corpo e Sangue, com o qual perpetuaria pelos séculos, até que ele volte, o
Sacrifício da Cruz. Deste modo ele confiou à Igreja, sua amada Esposa, o memorial
de sua Morte e Ressurreição” (SC, n. 47).
A primeira leitura – Dt 8,2-3.14-16 – o povo é convidado a
não se esquecer da experiência no deserto, quando Deus o conduziu à liberdade.
A Palavra divina é tão necessária quanto a água que sai da rocha e o maná. Esse
mesmo Deus continua acompanhando o povo no dia a dia. O maná, alimento que Deus
providenciou para o seu povo durante a longa peregrinação pelo deserto, como
nos recorda o Livro do Deuteronômio, foi uma dádiva temporária que sustentou a
vida física, mas não impediu a morte dos antepassados dos israelitas. Esse maná
prefigura a Eucaristia, Alimento verdadeiro que Jesus nos oferece, capaz não
apenas de sustentar o nosso corpo, mas de nos oferecer a vida eterna.
A segunda leitura – 1Cor 10,16-17 – apresenta que a comunhão
do corpo e sangue de Cristo cria uma união vital na comunidade celebrante. A
Eucaristia é a raiz da comunhão entre os fiéis, os quais formam um só corpo. Ao
partilhar o pão, participamos do único corpo, símbolo da comunhão viva com
Cristo e entre nós.
No Evangelho – Jo 6,51-58 – Jesus se apresenta como o pão
vivo vindo do Pai. Ele se tornou carne, a qual alimenta a vida da humanidade.
Alimentar-se da carne e do sangue de Jesus significa acolher o dom total de sua
vida e entrar em comunhão com ele e com seu Pai, fonte última da vida. Jesus se
apresenta como o Pão vivo que desceu do Céu, oferecendo a sua Carne e o seu
Sangue como alimento e bebida para a vido do mundo. Ele declara com firmeza que
quem se alimenta desse Pão tem a vida eterna e será ressuscitado no último dia.
É nesse mistério que a fé encontra o seu fundamento e a esperança se fortalece.
Na
festa de Corpus Christi, a Igreja revive o mistério da Quinta-Feira Santa à luz
da Ressurreição. Também a Quinta-Feira Santa conhece uma sua procissão
eucarística, com a qual a Igreja repete o êxodo de Jesus do Cenáculo para o
monte das Oliveiras. Em Israel, celebrava-se a noite de Páscoa em casa, na
intimidade da família. Fazia-se assim memória da primeira Páscoa, no Egipto da
noite em que o sangue do cordeiro pascal, aspergido na arquitrave e nos portais
das casas, protegia contra o exterminador. Jesus, naquela noite, sai e
entrega-se ao traidor, ao exterminador e, precisamente assim, vence a noite,
vence as trevas do mal. Só desta forma, o dom da Eucaristia, instituída no
Cenáculo, encontra o seu cumprimento: Jesus entrega realmente o seu corpo e o
seu sangue. Atravessando o limiar da morte, torna-se pão vivo, verdadeiro maná,
alimento inexaurível para todos os séculos. A carne torna-se pão de vida.
Na
procissão da Quinta-Feira Santa, a Igreja acompanha Jesus ao monte das
Oliveiras: a Igreja orante sente um desejo profundo de vigiar com Jesus, de não
o deixar sozinho na noite do mundo, na noite da traição, na noite da
indiferença de muitos.
Na
festa de Corpus Christi, retomamos esta procissão, mas na alegria da
Ressurreição. O Senhor ressuscitou e precedeu-nos. Nas narrações da
Ressurreição há uma característica comum e fundamental; os anjos dizem: o
Senhor "vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis" (Mt 28, 7).
Considerando isto mais de perto, podemos dizer que este "preceder" de
Jesus exige uma dupla direção. A primeira é como ouvimos a Galileia. Em Israel,
a Galileia era considerada como a porta que se abre para o mundo dos pagãos.
Com
a procissão de Corpus Christi, nós levamos Cristo, presente na
figura do pão, pelas estradas da nossa cidade. Nós confiamos estas estradas,
estas casas a nossa vida quotidiana à sua bondade. Que as nossas estradas sejam
de Jesus! Que as nossas casas sejam para Ele e com Ele! A nossa vida de todos
os dias estejam penetradas da sua presença. Com este gesto, colocamos sob o seu
olhar os sofrimentos dos doentes, a solidão dos jovens e dos idosos, as
tentações, os receios toda a nossa vida. A procissão pretende ser uma bênção
grande e pública para a nossa cidade: Cristo é, em pessoa, a bênção divina para
o mundo o raio da sua bênção abranja todos nós!
Na
procissão de Corpus Christi, acompanhamos o Ressuscitado no seu
caminho pelo mundo inteiro como dissemos. E, precisamente fazendo isto,
respondemos também ao seu mandamento: "Tomai e comei... Bebei todos"
(Mt 26, 26s.). Não se pode "comer" o Ressuscitado, presente na figura
do pão, como um simples bocado de pão. Comer este pão é comunicar, é entrar em
comunhão com a pessoa do Senhor vivo. Esta comunhão, este ato de
"comer", é realmente um encontro entre duas pessoas, é deixar-se
penetrar pela vida d'Aquele que é o Senhor, d'Aquele que é o meu Criador e
Redentor.
Hoje Jesus continua a oferecer-se no dom da Palavra e da
Eucaristia. Neste dia de Corpus Christi, somos convidados a
celebrar não apenas o alimento físico, mas também o dom inefável da presença
real de Cristo na Eucaristia e em nossa vida. Jesus, Pão da Vida, é a fonte da
renovação, força e comunhão. Que, com reverência e alegria, possamos acolher
este mistério que alimenta nossa jornada rumo à eternidade!
Graças e louvores sejam dadas a todo momento! Ao Santíssimo
e Diviníssimo Sacramento! Amém!
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR

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