Todavia, mais que uma ocasião de
festa em torno às chamas, as fogueiras acendidas têm suas origens para além dos
festivais a modas soltas. A fogueira de São João é, antes de tudo, um dos
símbolos mais potentes das festas juninas, carregando significados que unem a
fé cristã a antigas tradições. O elemento fogo atua como uma fonte entre o
sagrado, a natureza em seus ciclos e a própria vida comunitária. Para além
disto, o fogo carrega um chamado mais profundo que por vezes é quase esquecido,
haja vista o propósito cristão que deve primar como a essência do distinto festejo.
Distraídos com a singeleza do João
menino que tem junto a si o dócil cordeiro e impulsionados pelo calor da emoção
das grandes festas, muitos esquecem do sinal que a vida de João Batista
representa na Sagrada Tradição, desde sua natividade, solenemente celebrada, ao
seu martírio, cuja dor repercute na dor de tantos outros massacrados pelo poder
tirano. E como dileto sinal, apregoado com veemência pelo Precursor, o fogo
assume renovado sentido incandescendo não apenas os olhos do corpo, mas também
os do espírito, aquecendo não apenas os corpos enrijecidos pelo frio da roça,
mas também o coração espiritual do fiel e da comunidade que comemora.
"Eu vos batizo com água, mas
virá aquele que é mais forte do que eu [...] Ele vos batizará com o Espírito
Santo e com fogo" (Lc 3,16). Nessa afirmação, o Precursor não apenas define os limites da
própria missão, mas abre caminho para a novidade absoluta de Cristo. A água de João
purifica o exterior e prepara o arrependimento; o fogo de Jesus penetra as
entranhas, consome o pecado e transforma a própria natureza humana. Justamente
aí a piedade popular cristã encontra a forma de perpetuar essa transição por meio
do acender da fogueira de São João.
Tal fogueira se desvela como uma
metáfora: ela é luz que brilha na escuridão da noite, mas não possui luz
própria para se sobrepor ao brilho abundante da luz do dia; ela se consome para
apontar o caminho, enquanto anuncia o Sol Nascente que ao fim da noite fria
desponta majestoso, como o belo esposo do quarto nupcial, como o valente
guerreiro triunfante em seu caminho, traduzindo assim, em elementos simples, a
mensagem e o mensageiro, o Cristo anunciado e aquele que com a vida o anunciara,
selando com o sangue o romper de uma aurora que até hoje não vê seu fim, antes
a perpetuar como o dia da sempiterna e feliz ressureição.
De tal modo, João Batista distingue-se
como a última labareda da Antiga Aliança, o fogo profético que no auge de toda
profecia prepara os corações, ardendo, consumindo, mas sem jamais extinguir, antes
a fortificar o que o Pecado viera a oprimir. Tais mistérios torne, pois, convictos,
os cristãos do tempo presente, para que o batismo de fogo predito por João e
concretizado com Cristo em Pentecostes, esteja perenemente a aquecer os filhos
e filhas de Deus nas gélidas noites de sua infeliz preponderância, rompendo a
partir daí, pela luz divina, as trevas de todo erro e engano.
Que ao redor das fogueiras acendidas
neste nosso Brasil seja partilhada não somente a alegria que revigora a dura lida,
mas sobretudo a Esperança que, fruto de tão importante Batismo, regenera e revigora
pelo fogo de Cristo a chama acendida não por homens, nem com lenhas de
quaisquer campos, mas por Cristo, que do madeiro da Cruz segue sedento por
vibrar para sempre em nossos corações.
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR

Comentários
Postar um comentário