O Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum e a Coragem de Quem Sabe que É Amado
Três vezes em poucos versículos Jesus repete o mesmo comando: não tenhais medo. Não é uma repetição por acaso. É o sinal de que ele sabia muito bem o que seus discípulos enfrentariam. E sabia, também, que o medo seria a primeira tentação a paralisar o testemunho.
Jeremias conheceu isso na própria pele. A primeira leitura
de hoje não é um texto teológico distante – Jr 20,10-13 –. É o desabafo de um
homem cercado: "Denunciai-o, denunciemo-lo. Todos os amigos observavam
minhas falhas" (Jr 20,10). Jeremias não estava sofrendo por ter feito algo
errado. Estava sofrendo por ter dito a verdade. E a verdade, quando incomoda,
provoca reação.
O medo que paralisa e o medo que orienta. Há dois tipos de
medo no Evangelho de hoje, e Jesus distingue os dois com precisão – Mt 10,26-33
–. Existe o medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. E
existe o temor de Deus, que é de outra natureza. Um paralisa. O outro orienta.
O medo dos homens é o medo da opinião, da rejeição, da perda de prestígio. É o
medo que faz calar quando seria hora de falar. Que faz concordar quando seria
hora de discordar. Que faz esconder a fé para não parecer fora de lugar. Jesus
não minimiza esse medo. Ele o nomeia e diz: não deixe que esse medo governe
você.
O temor de Deus, por sua vez, não é pavor. É reconhecimento.
É saber que existe uma realidade maior do que a aprovação humana. É viver
orientado por uma referência que não muda conforme o vento da cultura. Quem tem
esse temor encontra, paradoxalmente, uma liberdade que os outros não têm.
Dois pardais e a providência: Jesus usa uma imagem pequena
para dizer algo enorme. "Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No
entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai" (Mt
10,29). O pardal era o animal mais barato do mercado. Dois por uma moeda. E
mesmo assim, nenhum cai fora do olhar do Pai. Se é assim com os pardais, o que
dizer de nós? "Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados"
(Mt 10,30). Essa frase não é poesia. É teologia. É a afirmação de que Deus não
nos acompanha de longe, com um olhar vago e distante. Ele nos conhece por
dentro, nos detalhes, nas fragilidades que nem nós mesmos sabemos nomear. O
Salmo de hoje confirma isso: "Pois nosso Deus atende à prece dos seus
pobres e não despreza o clamor de seus cativos" (Sl 69,34).
Quem acredita nisso de verdade não pode viver paralisado
pelo medo. A providência não é uma garantia de que nada vai doer. Jeremias
sofreu. Os apóstolos sofreram. Mas nenhum deles foi abandonado. E é exatamente
essa distinção que Jesus quer gravar no coração de quem o segue: sofrimento não
é abandono.
O dom que ultrapassou o delito. São Paulo, na carta aos
Romanos, coloca o dedo em algo que está na raiz de tudo – Rm 5,12-15 –. O medo,
no fundo, é filho do pecado. Quando Adão se escondeu de Deus no jardim, o medo
entrou na história humana junto com a culpa. "O pecado entrou no mundo por
um só homem. Através do pecado, entrou a morte" (Rm 5,12).
Mas Paulo não para aí. Ele vai além, e é nesse além que está
a boa notícia: "O dom da graça de Deus se derramou em abundância sobre
todos" (Rm 5,15). O que Adão desfez, Cristo refez. E refez de modo
superior. Não apenas restaurou o que havia sido perdido. Abriu um horizonte que
nem a criação original havia mostrado.
Isso tem consequências práticas. Se o dom de Cristo é maior
do que o estrago do pecado, então o cristão não vive a partir do déficit. Vive
a partir da abundância. Não a partir do que falta, mas a partir do que foi
dado. E quem vive assim não precisa ter medo, porque já sabe que a última
palavra não pertence ao mal.
Declarar-se a favor de Cristo. Jesus termina o trecho do
Evangelho com uma afirmação que exige honestidade: "Todo aquele que se
declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele
diante do meu Pai que está nos céus" (Mt 10,32). Declarar-se a favor de
Cristo não é apenas uma questão de palavras. É uma questão de vida. É a
coerência entre o que se acredita dentro e o que se vive fora.
Neste domingo, a liturgia nos faz uma pergunta direta: você
tem vivido como alguém que não tem medo? Não a ausência de medo como coragem
humana, mas a ausência de medo que nasce de saber que é amado, contado,
conhecido pelo nome.
Jeremias chegou a esse lugar. No meio da perseguição, ele
cantou: "Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, pois ele salvou a vida de um
pobre homem das mãos dos maus" (Jr 20,13). O louvor não veio depois que
tudo passou. Veio no meio da tribulação. Porque a certeza de Deus não espera as
circunstâncias melhorarem para se manifestar. Caminhai no Senhor.
Crédito da imagem:
O Sermão da Montanha, por Henrik Olrik,
c.1830–1890.
Coleção da Igreja de São Mateus, em
Copenhague, na Dinamarca

Comentários
Postar um comentário