A Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja, neste ano será antecipada para o domingo, dia 28 de junho. Queremos nos unir afetivamente ao Papa Leão XIV. Pedimos a Deus as mais preciosas bênçãos para o ministério petrino do Sumo Pontífice.
A liturgia do 13º. Domingo do Tempo Comum cede lugar para a
Solenidade de São Pedro e São Paulo. Por isso, há perguntas que atravessam
séculos sem perder a força. A que Jesus faz aos discípulos em Cesareia de
Filipe é uma delas: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (Mt 16,15).
Ele não pergunta o que os outros pensam. Pergunta o que nós
pensamos. A resposta de Pedro naquele momento não foi fruto de pesquisa ou de
raciocínio teológico elaborado. Foi revelação. "Tu és o Messias, o Filho
do Deus vivo" (Mt 16,16). E Jesus deixa claro: isso não veio de carne nem
de sangue. Veio do Pai.
Essa distinção importa muito. Há um conhecimento sobre Jesus que
se aprende nos livros, nas aulas, nos debates. E há um conhecimento que só
nasce do encontro. Pedro tinha os dois, mas o que fundou a Igreja foi o
segundo.
Uma pedra chamada pelo nome: Jesus
muda o nome de Simão. Passa a chamá-lo Pedro, que significa rocha. E sobre essa
rocha diz que construirá sua Igreja. Quem conhece a história de Pedro
sabe o quanto essa escolha é surpreendente. Pedro era impulsivo, contraditório,
capaz de caminhar sobre as águas e de afundar no mesmo instante. Negou Jesus
três vezes na noite da paixão. E ainda assim é sobre ele que a promessa recai.
Isso revela algo essencial sobre como Deus constrói. Ele não
escolhe o que parece mais sólido aos olhos humanos. Ele escolhe e, ao escolher,
transforma. A pedra não estava pronta antes da escolha. Tornou-se pedra porque
foi chamada a sê-lo.
Esse princípio atravessa toda a história da salvação. Moisés
gaguejava. Davi era o menor dos filhos de Jessé. Paulo perseguia a Igreja. A
grandeza apostólica não é uma qualidade prévia. É uma resposta à graça.
A noite em que as correntes caíram. A primeira leitura conta uma cena que parece saída de outro mundo –
At 12,1-11 –. Pedro está na prisão, acorrentado entre dois soldados, com a
sentença de morte se aproximando. Herodes já havia mandado matar Tiago. Pedro
seria o próximo.
E a Igreja rezava. Continuamente. O texto dos Atos é preciso nesse
detalhe: "a Igreja rezava continuamente a Deus por ele" (At 12,5).
Não rezou uma vez e desistiu. Rezou sem parar. Na noite anterior à execução, um
anjo acorda Pedro. As correntes caem. As portas se abrem sozinhas. Pedro passa
pelas guardas sem ser visto. Sai para a rua e, somente então, cai em si:
"Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar"
(At 12,11).
Há algo de muito humano nessa reação. Pedro precisou sair da
prisão para entender que havia saído. Às vezes a libertação já aconteceu e
ainda não percebemos. Estamos livres, mas continuamos agindo como presos. A fé
é também isso: reconhecer, depois, a mão de Deus onde antes só víamos
escuridão.
O combate que vale a pena: Paulo escreve
a Timóteo de dentro de uma situação sem saída aparente – 2Tm 4, 6-8 17-18 –.
Está preso, sente que o fim se aproxima. E, no entanto, as palavras que escolhe
não são de lamento. São de balanço sereno: "Combati o bom combate,
completei a corrida, guardei a fé" (2Tm 4,7).
Três verbos no passado. Três certezas que nenhuma prisão pode
desfazer.
E acrescenta: "O Senhor esteve a meu lado e me deu
forças" (2Tm 4,17). Não disse que o Senhor removeu os obstáculos. Disse
que esteve ao lado. A presença de Deus não é garantia de ausência de
sofrimento. É garantia de companhia dentro dele.
Pedro foi libertado da prisão por um anjo. Paulo foi libertado por
dentro, pela certeza de que o que viveu tinha sentido e de que havia uma coroa
reservada para ele. São duas formas de libertação. Ambas reais. Ambas
necessárias.
A pergunta que não envelhece – Evangelho Mt 16,13-19 –. Nesta solenidade, a Igreja celebra dois homens muito diferentes
entre si. Pedro, o pescador de Galileia, direto, emocional, que aprendeu na
pele o que é cair e ser levantado. Paulo, o intelectual de Tarso, formado nas
melhores escolas de seu tempo, que encontrou Cristo no caminho de Damasco e
nunca mais foi o mesmo.
Deus não precisa de um modelo único. Precisa de pessoas que
respondam à pergunta que Jesus faz em Cesareia de Filipe com a própria vida,
não apenas com palavras.
"E vós, quem dizeis que eu sou?" A resposta de Pedro foi
proclamada com a boca. A de Paulo foi escrita com o sangue de uma vida
entregue. A nossa resposta está sendo escrita agora, no modo como tratamos quem
está à nossa volta, no que fazemos com o que recebemos, na fidelidade que
sustentamos nos dias em que ninguém está olhando.
As chaves do Reino não são um símbolo de poder. São um convite à
responsabilidade. Receber as chaves significa ser chamado a abrir portas, não a
fechá-las. A servir, não a dominar. A pastorear com o amor que Pedro confessou
três vezes à beira do lago e Paulo viveu até o fim. Caminhai no Senhor.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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