O Monte Carmelo e a Vocação de Fazer a Vontade do Pai
A liturgia desta quinta-feira, 16 de julho, nos coloca diante de
uma festa que tem sabor de casa, de proteção e de ternura: a memória da
Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. E logo na primeira leitura,
tirada do profeta Zacarias – Zc 2,14-17 –, somos surpreendidos por um convite
que atravessa os séculos e chega até nós hoje: "Rejubila, alegra-te,
cidade de Sião, eis que venho para habitar no meio de ti, diz o Senhor".
Não é pouca coisa. Deus não promete visitar de passagem. Ele promete habitar.
Fazer morada. Ficar.
E é justamente esta promessa que encontra em Maria a sua
expressão mais bela e mais concreta. Se Sião foi convidada a se alegrar porque
Deus vinha morar em seu meio, quanto mais nós podemos nos alegrar ao contemplar
Maria, aquela em quem o próprio Verbo se fez carne. O salmo de hoje é o
Magnificat, cântico que ela própria entoou na casa de Isabel – Lc 1,46-55 –, e
nele ouvimos uma frase que merece ser meditada com atenção: "ele viu a
pequenez de sua serva". Não foi a grandeza de Maria que atraiu o olhar de Deus,
mas justamente a sua pequenez, a sua disponibilidade simples e confiante. É
esta a espiritualidade que os primeiros eremitas do Monte Carmelo, na Terra
Santa, quiseram viver quando ali se estabeleceram, no século doze, dedicando
aquele lugar sagrado à proteção maternal de Nossa Senhora.
Da experiência daqueles homens de oração nasceu a Ordem do
Carmo, uma das grandes famílias espirituais da Igreja, marcada pelo silêncio,
pela vida fraterna e pela busca incansável da presença de Deus no coração de
cada dia. Ao longo dos séculos, esta espiritualidade produziu frutos
extraordinários de santidade, como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz,
mestres da vida interior, e Santa Teresinha do Menino Jesus, que ensinou ao
mundo a via simples e confiante da infância espiritual diante de Deus. E, ao
lado dos religiosos e religiosas, floresceu também a Ordem Terceira do Carmo,
reunindo homens e mulheres leigos que, mesmo vivendo em meio às tarefas comuns
do trabalho e da família, decidiram abraçar esta mesma espiritualidade mariana
e contemplativa em pleno mundo. É um belo testemunho de que a santidade não
escolhe apenas os mosteiros: ela pode florescer também na vida ordinária de
quem se dispõe a escutar e a servir com fidelidade.
E chegamos, assim, ao coração desta celebração, presente no
Evangelho de Mateus 12,46-50. Jesus está no meio da multidão quando avisam que
sua mãe e seus irmãos o procuram do lado de fora. E ele responde de modo que
pode parecer, à primeira vista, um tanto duro: "Quem é minha mãe, e quem
são meus irmãos?" Mas logo em seguida explica o sentido profundo desta
pergunta, estendendo a mão para os discípulos: "Eis minha mãe e meus
irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse
é meu irmão, minha irmã e minha mãe". Não há aqui rejeição alguma a Maria.
Muito pelo contrário. Ela é justamente aquela que, mais do que qualquer
criatura, fez sempre e em tudo a vontade do Pai. Desde o seu sim pronunciado em
Nazaré até a hora silenciosa aos pés da cruz, Maria viveu de modo pleno aquilo
que Jesus aponta como critério do verdadeiro parentesco espiritual.
Esta é a lição que a devoção a Nossa Senhora do Carmo nos
oferece: o escapulário, tão presente na piedade do povo simples, não é um
simples objeto de proteção mágica. É sinal de uma consagração, de um
compromisso de vida, de um pertencimento amoroso àquela que nos ensina, com seu
exemplo, a colocar a vontade de Deus acima de qualquer outra vontade. Assim
como fizeram os primeiros carmelitas naquele monte da Palestina, assim como
fazem hoje os membros da Ordem Terceira em suas casas, em seus empregos, em seus
bairros, somos todos chamados a esta mesma disponibilidade.
Vivemos tempos em que o barulho e a pressa muitas vezes sufocam
a voz de Deus dentro de nós. Por isso a festa de hoje é também um convite ao
silêncio, à contemplação, ao recolhimento interior que os carmelitas tanto
valorizam. Não se trata de fugir do mundo, mas de aprender a habitar o mundo
com o coração voltado para Deus, como fez Maria, guardando a Palavra e
cumprindo-a com amor concreto ao próximo. A aclamação ao Evangelho de hoje
sintetiza bem este chamado: "Feliz quem ouve e observa a palavra de
Deus" – Lc 11,28.
Que Nossa Senhora do Carmo cubra com seu manto de proteção cada
família, cada pessoa que sofre, cada comunidade que busca ser fiel ao
Evangelho. E que, seguindo o exemplo desta Mãe que se fez pequena para que Deus
fizesse por ela grandes coisas, aprendamos também nós a colocar em primeiro
lugar, todos os dias, a vontade do Pai. Caminhemos, pois, confiantes, sob o
olhar materno de Maria, sempre dispostos a sermos, na simplicidade da vida
cotidiana, verdadeiros irmãos e irmãs de Jesus.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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