(Ex
17,8-13; Sl 120; 2Tm 3,14–4,2; Lc 18,1-8)
O
Evangelho deste 29º Domingo do Tempo Comum (Lc 18,1-8) começa com uma exortação
direta de Jesus: “É preciso rezar sempre, sem jamais desistir.” Esta
frase resume o coração da liturgia da Palavra deste domingo, que nos conduz à
reflexão sobre a força da oração perseverante e a fé ativa que sustenta o
discípulo diante dos desafios da vida.
Jesus
conta a parábola do juiz injusto e da viúva insistente, uma narrativa que
revela o contraste entre a frieza humana e a misericórdia divina. O juiz, que “não
temia a Deus nem respeitava homem algum” (Lc 18,2), representa a lógica do
mundo — fria, indiferente, autorreferida. A viúva, por outro lado, é a imagem
do fiel que não desiste, que mantém sua confiança no Senhor mesmo quando parece
não ser ouvido.
A
atitude da viúva é símbolo da fé que luta e espera. Ela não se resigna ao
silêncio, não se entrega à indiferença, mas continua batendo à porta da
justiça. E Jesus conclui: “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que
a Ele clamam dia e noite? Será que vai fazê-los esperar?” (Lc 18,7). A
resposta de Cristo é clara: Deus é fiel, e a oração perseverante abre o coração
humano para acolher a sua justiça e o seu amor.
Na
primeira leitura, o livro do Êxodo (Ex 17,8-13) apresenta a figura de Moisés de
braços erguidos, intercedendo pelo povo durante a batalha contra os amalecitas.
Enquanto ele mantém as mãos levantadas, Israel vence; quando as abaixa, o
inimigo prevalece. É uma imagem poderosa da intercessão que sustenta a
caminhada do povo de Deus.
Moisés,
com os braços erguidos, prefigura Cristo na cruz, o grande intercessor da
humanidade. Assim como Moisés, Jesus ora por nós continuamente junto ao Pai: “Simão,
Simão, eis que Satanás pediu para vos peneirar como trigo. Eu, porém, rezei por
ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lc 22,31). A vitória de Josué sobre
Amalec é, portanto, fruto da oração perseverante — um lembrete de que, no
combate espiritual, quem reza nunca está sozinho, pois participa da luta e da
vitória de Cristo.
A
segunda leitura (2Tm 3,14–4,2) traz o testemunho do Apóstolo Paulo a Timóteo,
seu discípulo e colaborador. Paulo, consciente da proximidade de sua morte,
entrega-lhe o seu “testamento espiritual”: “Permanece firme naquilo que
aprendeste e acreditaste” (2Tm 3,14). Ele recorda que “toda a Escritura
é inspirada por Deus e útil para ensinar, repreender, corrigir e formar na
justiça” (2Tm 3,16).
O
apóstolo nos ensina que a oração e a escuta da Palavra caminham juntas. Rezar
sem a Palavra é falar sem escutar; escutar sem rezar é conhecer sem amar. Por
isso, a fé autêntica nasce da escuta e se sustenta na oração perseverante. O
cristão que se alimenta da Escritura e da Eucaristia encontra força para
permanecer firme, mesmo quando o mundo parece injusto e o mal parece vencer.
Ao
concluir a parábola, Jesus lança uma pergunta que atravessa os séculos: “Mas
o Filho do Homem, quando vier, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18,8).
Trata-se de uma provocação espiritual. O Senhor não pergunta se encontrará
orações, templos ou devoções — pergunta se encontrará fé verdadeira, aquela que
se traduz em perseverança, fidelidade e esperança ativa.
A
oração perseverante é o sinal mais concreto dessa fé. Ela não é uma repetição
vazia de palavras, mas uma expressão de confiança constante em Deus. Quem reza
continuamente não se entrega ao desânimo, mas aprende a esperar o tempo de
Deus, a interpretar os silêncios divinos como parte do mistério da fé.
O
Papa Francisco recorda: “A oração é o respiro da fé. É o seu grito que sai do
coração daqueles que acreditam e confiam em Deus.” (Audiência Geral, 25 de
maio de 2022)
E
São João Paulo II, dirigindo-se aos jovens, disse com força:
“Não
deixeis de orar! A oração é um dever, mas também uma grande alegria, porque é
um diálogo com Deus por meio de Jesus Cristo.”
(Encontro com os Jovens, 14 de março de 1979)
O
salmo deste domingo (Sl 120) canta: “Do Senhor vem o meu socorro, do Senhor
que fez o céu e a terra.” Ele ecoa a confiança da viúva e a perseverança de
Moisés. É a voz da Igreja que, em todas as gerações, eleva os olhos para Deus e
encontra nele o seu refúgio.
Por
isso, a liturgia deste domingo é um convite para que cada cristão renove seu
compromisso com a oração constante: oração pessoal, comunitária e litúrgica. É
na oração que o discípulo encontra sentido para a sua luta, força para carregar
a cruz e esperança para perseverar até o fim.
Que
o Senhor nos conceda a graça de rezar sempre, sem jamais desistir — mesmo
quando o silêncio parece longo e o coração se cansa. Porque, no tempo certo,
Deus faz justiça, consola os seus filhos e renova a fé de quem não desiste de
esperar.
Senhor,
fortalecei nossa fé para que nunca deixemos de rezar. Quando o desânimo nos
visitar, sustentai-nos com a vossa Palavra; quando o silêncio pesar, fazei-nos
compreender o vosso tempo; e, quando a luta se prolongar, lembrai-nos que
estais conosco, intercedendo por nós. Amém.
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR
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