Celebramos,
de maneira extraordinária neste ano de 2025, a Solenidade de Todos os Santos,
na manhã do sábado dia 01 de novembro, considerando que o Domingo, sendo dia 02
de novembro, obrigatoriamente deverá ser celebrada a Comemoração de Todos os
Fiéis Defuntos.
Na
primeira leitura – Ap 7,2-4.9-14 – o autor sagrado descreve a felicidade dos
mártires e dos santos na sua condição celeste, invisível. Para isso, o profeta
recorre a uma visão. As primeiras perseguições tinham feito cruéis destruições
nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. Iriam estas comunidades desaparecer,
acabadas de fundar? As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de
esperança nesta provação. É uma linguagem codificada, que evoca Roma,
perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o
qualificativo de Babilônia. A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro.
Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa
definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o caminho de morte em caminho de
vida para todos aqueles que O seguem, em particular pelo martírio, e eles são
numerosos; participam doravante ao seu triunfo, numa festa eterna. O grupo dos
salvos se une à grande multidão, para a confraternização numa ampla liturgia
universal. Independentemente de credos e etinias, os santos são os que se
mantiveram na fidelidade aos valores do Evangelho.
O salmo responsorial de hoje Sl 23 (24)
proclama as condições de entrada no Templo de Deus. Ele anuncia também a
bem-aventurança dos corações puros. Nós somos este povo imenso que marcha ao
encontro do Deus santo.
Na
Segunda leitura – 1Jo 3,1-3 – mostra que desde o nosso batismo, somos chamados
filhos de Deus e o nosso futuro tem a marcada da eternidade. Segunda mensagem
de esperança. Ela responde às nossas interrogações sobre o destino dos
defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos?
E nós próprios, que viremos a ser? A resposta é uma dedução absolutamente
lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode
abandonar. Ora, em Jesus, vemos já a que futuro nos conduz a pertença à família
divina: seremos semelhantes a Ele. Eis o belo presente que recebemos de Deus:
sentir-nos queridos por ele como filhos e filhas. Somos filhos e filhas do
Santo por excelência e, por isso, chamados a ser santos. Cada ser humano é
objeto do amor do Pai. Realmente somos filhos e filhas de Deus. Quem vive a
fidelidade a Jesus nesta vida : “Sabemos que, quando Jesus se manifestar,
seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é”.
No
Evangelho – Mt 5,1-12 – mostra as bem-aventuranças: Que futuro reserva Deus aos
seus amigos, no seu Reino celeste? Ele próprio é fonte de alegria e de
felicidade para eles. Depois de dizer quem é Jesus (cf. Mt 1,1-2,23) e de
definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,16), Mateus vai apresentar a concretização
dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às
multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de
Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.
Uma
característica importante do Evangelho segundo Mateus reside na importância
dada pelo evangelista aos “ditos” de Jesus. Ao longo do Evangelho segundo
Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25), nos
quais Mateus junta “ditos” e ensinamentos provavelmente proferidos por Jesus em
várias ocasiões e contextos. É provável que o autor do primeiro Evangelho visse
nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada
ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco livros do Pentateuco. O primeiro
discurso de Jesus – do qual o Evangelho que nos é hoje proposto é a primeira
parte – é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Agrupa um
conjunto de palavras de Jesus, que Mateus colecionou com a evidente intenção de
proporcionar à sua comunidade uma série de ensinamentos básicos para a vida
cristã. O evangelista procurava, assim, oferecer à comunidade cristã um novo
código ético, uma nova Lei, que superasse a antiga Lei que guiava o Povo de
Deus. Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação
geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus
Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha,
oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão
interessados em aderir ao “Reino”.
As
“bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na boca de
Jesus, são consideravelmente diferentes das “bem-aventuranças” propostas por
Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem nove “bem-aventuranças”, enquanto que Lucas
só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que
estão ausentes do texto mateano; outras notas características da versão de
Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os
“pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da
comunidade e ao comportamento dos cristãos. É muito provável que o texto de
Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido
mais trabalhado.
Bem-aventurados
ou felizes são todos aqueles que encontraram o caminho do Reino de Deus e a ele
se dedicaram, mantendo-se fiéis e perseverantes a despeito dos desafios e
perseguições. As bem-aventuranças são o melhor caminho da busca e da vivência
da santidade; constituem a “carteira de identidade” do cristão.
A
motivação primeira para a busca e a vivência da santidade é o próprio Deus,
porque ele é o santo por excelência. Fomos criados à sua imagem e semelhança. A
santidade de Deus convida todos os seres humanos a serem santos. Ao nos criar,
ele colocou em nosso coração o desejo da santidade. Portanto, esta não é uma
ideia ultrapassada, própria de séculos remotos, mas é dom presente no coração
de cada pessoa. A santidade consiste em revelar o dom divino existente em cada
ser humano. Vivamos a santidade, sobretudo, nos gestos mais simples e
eloquentes da vida cotidiana, do trabalho, do matrimônio, da vida consagrada. A
santidade é do DNA da Igreja e de todo batizado! Não tenhamos medo de sermos
santos como Deus é Santo!
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR
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