Irmãos e irmãs, na aurora do Natal, quando a luz do novo dia começa a despontar, a liturgia convida-nos a contemplar o mistério do Natal a partir da perspectiva da luz que vence as trevas. Se, na Missa da Noite, fomos conduzidos à gruta de Belém para adorar o Menino recém-nascido, nesta Missa da Aurora somos chamados a perceber que esse nascimento já começa a transformar a história, iluminando o caminho da humanidade.
Na
primeira leitura, do livro do profeta Isaías (Is 62,11-12), ressoa um anúncio
cheio de esperança: “Eis que vem o teu Salvador”. O profeta proclama que
Deus não abandona o seu povo, mas vem ao seu encontro para resgatá-lo e
restaurá-lo. Jerusalém, antes marcada pela desolação, passa a ser chamada de “Cidade
Procurada, Cidade não abandonada”. Essa profecia cumpre-se plenamente no
Natal: em Jesus, Deus visita a humanidade e devolve-lhe a dignidade perdida. A
aurora do Natal é, portanto, o sinal de que a história não está condenada à
escuridão, porque Deus entrou nela.
O
Salmo responsorial (Sl 96) convida toda a criação a participar dessa alegria: “Cantai
ao Senhor Deus um canto novo”. O nascimento de Cristo não é um
acontecimento privado ou restrito a alguns; é uma Boa Notícia destinada a todos
os povos. O salmo proclama que o Senhor vem para governar a terra com justiça e
fidelidade. Na aurora do Natal, somos lembrados de que a fé cristã não é fuga
da realidade, mas anúncio de um mundo novo, fundamentado na justiça de Deus.
Na
segunda leitura, retirada da carta de São Paulo a Tito (Tt 3,4-7), o apóstolo
afirma que “manifestou-se a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor
pelos homens”. O Natal é exatamente essa manifestação concreta do amor de
Deus. Não somos salvos por nossos méritos, mas pela misericórdia divina. Deus
nos salva regenerando-nos pelo Espírito Santo, tornando-nos seus filhos e
herdeiros da vida eterna. A aurora do Natal revela que a salvação não é apenas
promessa futura, mas realidade que já começa a agir na vida daqueles que se
deixam tocar pela graça.
No
Evangelho segundo São Lucas (Lc 2,15-20), encontramos os pastores, que, depois
de ouvirem o anúncio dos anjos na noite, vão apressadamente a Belém e encontram
Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. Eles veem, acreditam e tornam-se
testemunhas do que lhes foi revelado. Depois do encontro com o Menino, voltam
glorificando e louvando a Deus. A aurora do Natal nasce também no coração
desses pastores simples, que acolhem a revelação e deixam-se transformar por
ela.
Maria,
por sua vez, guarda todas essas coisas, meditando-as em seu coração. Ela
representa a atitude fundamental do cristão diante do mistério do Natal:
acolher, contemplar e permitir que Deus fale no silêncio interior. O Natal não
é apenas um acontecimento externo, mas um mistério que precisa ser
interiorizado para produzir frutos.
Celebrar
o Natal na Missa da Aurora é reconhecer que Jesus nasce para ser luz no
caminho, clareando nossas escolhas, iluminando nossas relações e dando sentido
novo à nossa existência. A aurora simboliza o início de uma vida renovada. Quem
encontrou Cristo não pode continuar vivendo como antes. Assim como os pastores,
somos enviados a anunciar o que vimos e ouvimos; assim como Maria, somos
chamados a guardar o mistério e deixar que ele transforme nosso interior.
Que
esta aurora do Natal nos ajude a renovar a fé, a reacender a esperança e a
assumir o compromisso de sermos sinais da luz de Cristo no mundo. O Senhor
nasceu para nós; cabe agora a cada um acolhê-lo, testemunhá-lo e deixar que Ele
faça nascer, também em nossa vida, um tempo novo de graça e salvação.
+Dom
Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá
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