Depois
do encantamento do tempo litúrgico do Natal, iniciamos a primeira etapa do
Tempo Comum, que vai até a terça-feira que antecede a Quarta-feira de Cinzas,
com o início da Quaresma. O ordinário na vida da Igreja nos permite iluminar a
nossa vida pelo Cristo Ressuscitado!
As
leituras que a liturgia deste 2º Domingo do Tempo Comum nos propõe recordam-nos
que Deus conta conosco para concretizar o seu projeto de salvação em favor dos
homens. Ele nos escolhe, nos chama, nos envia e nos habilita para sermos suas
testemunhas no mundo. Não temos o direito de frustrar, com as nossas recusas, o
projeto de Deus.
A
primeira leitura – Is 49,3.5-6 – traz-nos a história da vocação de um “Servo do
Senhor”, escolhido por Deus “desde o seio materno” para ser “luz das nações” e
levar a salvação de Deus “até os confins da terra”. Consciente de que Deus o
sustenta com a sua força, o Servo dispõe-se a cumprir a missão que lhe é
confiada. Quando Deus nos inclui nos seus planos, a nossa resposta só pode ser
um “sim” sem reticências. O segundo Cântico do Servo, identificado pela Igreja
com o próprio Jesus, mostra que o Servo tem consciência de sua missão
profética: reunir e restaurar o povo disperso. Ele é “luz das nações”, isto é,
sua missão é universal. Todos somos servos do Senhor, a serviço dos seus
planos.
Na
segunda leitura – 1Cor 1,1-3 –, Paulo de Tarso lembra aos cristãos da cidade de
Corinto que todos são chamados a cumprir a missão que Deus lhes destina. Paulo,
chamado por Deus a ser apóstolo de Jesus Cristo, irá anunciar o Evangelho em
todo lugar aonde a vida o levar; os coríntios, chamados à santidade, deverão
viver de forma coerente com a vida nova que assumiram no dia em que se
comprometeram com Jesus e com o Evangelho. A comunidade é chamada e convidada a
viver na unidade, na fraternidade e na paz.
No
Evangelho – Jo 1,29-34 –, João Batista apresenta Jesus: Ele é “o Cordeiro de
Deus que tira o pecado do mundo”, o “Filho de Deus”, que possui a plenitude do
Espírito e que vem batizar os homens no Espírito. Jesus recebeu do Pai a missão
de oferecer aos homens a vida nova de Deus e irá cumpri-la com absoluta
fidelidade. Nós, os que nos aproximamos de Jesus e decidimos segui-Lo,
continuamos a obra de Jesus: somos enviados a levar ao mundo a salvação de
Deus.
João
Batista se apresenta como precursor, enviado por Deus para dar testemunho do
Messias. A seu exemplo, todo evangelizador é convidado a dar testemunho de
Jesus e não a se promover à custa do Evangelho.
João
Batista é o fiador da novidade trazida por Jesus: “Eu vi e dou testemunho” (Jo
1,34). O profeta, iluminado pelo Divino Espírito Santo, compreende o alcance da
surpreendente novidade trazida pelo Mestre: não é o ser humano que faz ofertas
a Deus, mas é Deus que oferece o seu Filho para a salvação da humanidade.
O
testemunho de João Batista é um convite a recomeçar, sempre de novo, o nosso
caminho de fé e de discipulado de Jesus. Deus está sempre ao nosso lado, sempre
nos surpreende e sempre se mostra solidário conosco.
Importa
deixarmo-nos alcançar pela voz do Espírito Santo, que interiormente insiste em
nos lembrar: Eis o Cordeiro de Deus que se fez dom por amor.
Jesus
é o Messias, mas não vem com o poder deste mundo, como muitos esperavam, e sim
como aquele que se confronta radicalmente com tudo o que espalha a maldade.
A
Igreja e todos os batizados devem repetir o gesto de São João Batista: mostrar
à humanidade o Cordeiro que se opõe às maldades do mundo. Ela não anuncia a si
própria, mas anuncia Jesus Cristo. Somente em Cristo encontramos a fonte que
liberta e conduz à terra da verdadeira liberdade.
O
mundo será redimido quando o Cordeiro for imolado: não mais um animal, mas o
Filho Unigênito do Pai, que inaugura, em si mesmo, a Nova e Eterna Aliança.
Jesus é o Cordeiro pascal, sacrificado para a salvação de todos. Testemunhemos,
com a vida e com gestos concretos, o Ressuscitado e anunciemo-Lo como o
“Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”.
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR

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