Queridos irmãos e irmãs,
Nós que vivemos em regiões rurais do interior
do Paraná, como Maringá e Toledo, bem sabemos de como o nosso povo que trabalha
na agricultura é devoto fiel de São Sebastião que é o padroeiro contra a peste,
a fome e a guerra e guia o trabalho de todos os que labutam no campo, na
pecuária e na agricultura.
Por isso, ao iniciarmos a Trezena em honra a
São Sebastião, somos convidados a renovar nossa fé à luz do testemunho firme e
luminoso deste santo mártir, cuja vida permanece como sinal eloquente de
fidelidade a Cristo em meio às adversidades. Celebrar São Sebastião é, antes de
tudo, reconhecer que o Evangelho exige coerência, coragem e perseverança,
sobretudo em tempos marcados por tantas formas de sofrimento, violência e
indiferença.
São Sebastião viveu em um contexto hostil à
fé cristã, marcado pela perseguição sistemática e pela tentativa de silenciar
aqueles que professavam o nome de Cristo. Como soldado do Império Romano,
poderia ter escolhido a segurança da acomodação e do silêncio, preservando sua
posição e seus privilégios. No entanto, movido por uma fé profunda e
amadurecida, preferiu colocar-se ao lado dos irmãos perseguidos,
fortalecendo-os na esperança e testemunhando, com a própria vida, sua pertença
a Cristo. Seu martírio não foi um ato impulsivo ou fanático, mas a consequência
de uma existência vivida em plena coerência com o Evangelho.
Ao longo dos séculos, o povo cristão recorreu
à intercessão de São Sebastião, especialmente nos momentos de grandes provações
coletivas, como as epidemias, a fome e as guerras. Essa devoção, profundamente
enraizada na piedade popular, expressa a confiança de que Deus não abandona seu
povo nas horas mais difíceis. Ao invocarmos São Sebastião como protetor contra
a peste, a fome e a guerra, reconhecemos que toda forma de sofrimento humano
encontra eco no coração misericordioso de Deus, que age também por meio da
intercessão dos seus santos.
A Trezena que agora iniciamos é um tempo
favorável para a oração, a conversão e o compromisso cristão. Não se trata
apenas de pedir graças, mas de permitir que o exemplo de São Sebastião
questione nossa própria vivência da fé. Ele nos interpela a perguntar se somos
capazes de permanecer fiéis a Cristo quando nossa fé é colocada à prova, quando
o Evangelho exige renúncia, quando somos chamados a ir contra a corrente da
mentalidade dominante.
Celebrar São Sebastião é também renovar nossa
consciência eclesial. A verdadeira devoção não se reduz a práticas externas,
mas conduz necessariamente a uma vida transformada pelo Evangelho. Não podemos
invocar a proteção do santo e permanecer indiferentes diante da dor dos pobres,
dos doentes, dos idosos, das vítimas da violência e de todos aqueles que vivem
à margem da sociedade. A fé que São Sebastião testemunhou com o martírio é a
mesma fé que hoje nos chama à solidariedade concreta, à promoção da paz e à
defesa incondicional da vida.
Neste tempo de Trezena, somos convidados a
fortalecer os laços de comunhão em nossas comunidades, a renovar o compromisso
com a oração e a redescobrir o valor do testemunho cristão no cotidiano. Que
São Sebastião nos ajude a compreender que a fidelidade a Cristo não nos afasta
do mundo, mas nos insere nele como sinais de esperança, instrumentos de
reconciliação e construtores da paz.
Que esta Trezena seja, para todos nós, um
verdadeiro caminho espiritual, capaz de renovar nossa confiança em Deus e de
reacender em nossos corações o desejo de uma fé mais autêntica e comprometida.
Sustentados pelo exemplo e pela intercessão de São Sebastião, sigamos firmes no
caminho do Evangelho, certos de que a fidelidade ao Senhor, mesmo em meio às
provações, é sempre fonte de vida nova, de liberdade interior e de verdadeira
salvação.
São Sebastião, rogai por nós.
+Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR

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