Irmãos e irmãs, hoje a Igreja nos
introduz na Semana Santa com uma liturgia marcada por um profundo contraste.
Iniciamos com a procissão de ramos, recordando a entrada de Jesus em Jerusalém
(cf. Mt 21,1-11), quando o povo o aclama: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito
o que vem em nome do Senhor!” (Mt 21,9). No entanto, poucos instantes
depois, escutamos o relato da Paixão segundo Evangelho
de Mateus (Mt 26,14 – 27,66), onde ecoa o grito: “Seja crucificado!”
(Mt 27,22-23). A liturgia nos coloca diante dessa mudança para revelar a
fragilidade do coração humano — e também para nos interpelar diretamente.
A entrada de Jesus em Jerusalém, como
nos narra Mateus, realiza a profecia: “Eis que o teu rei vem a ti, humilde,
montado num jumento” (cf. Zc 9,9; Mt 21,5). Cristo é, de fato, o Messias
esperado, mas sua realeza não corresponde às expectativas humanas. Ele não vem
com poder político ou militar, mas na humildade. O povo o aclama, mas não
compreende plenamente o tipo de Reino que Ele inaugura.
Na primeira leitura, o profeta Isaías
apresenta o Servo Sofredor: “Ofereci as costas para me baterem e as faces
para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas”
(Is 50,6). E ainda: “O Senhor Deus é meu auxílio, por isso não me deixei
abater” (Is 50,7). Esta figura encontra sua realização perfeita em Cristo,
que, na Paixão, assume livremente o sofrimento, permanecendo fiel ao Pai.
O Salmo responsorial nos faz rezar com
as próprias palavras de Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?” (Sl 21[22],2; cf. Mt 27,46). Este grito não é desespero, mas
oração. É a expressão de quem, mesmo na dor extrema, continua confiando em
Deus.
Na segunda leitura, São Paulo nos
apresenta o hino cristológico: “Cristo Jesus, existindo em condição divina,
não se apegou ao ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a
condição de servo” (Fl 2,6-7). E continua: “Humilhou-se, tornando-se
obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Este caminho de
humilhação é o caminho da salvação. E é por isso que “Deus o exaltou acima
de tudo” (Fl 2,9).
O Evangelho da Paixão segundo Mateus
nos apresenta, com riqueza de detalhes, o sofrimento de Cristo. Vemos a traição
de Judas (cf. Mt 26,14-16), a negação de Pedro (cf. Mt 26,69-75), o abandono
dos discípulos (cf. Mt 26,56), a injustiça do julgamento (cf. Mt 27,11-26) e a
zombaria dos soldados (cf. Mt 27,27-31). Tudo isso revela a profundidade da
entrega de Jesus.
Mas Mateus também insiste que tudo acontece
em cumprimento das Escrituras (cf. Mt 26,54.56). Nada é acaso. A cruz faz parte
do plano de Deus. Jesus mesmo afirma: “Tudo isso aconteceu para se cumprirem
as Escrituras dos profetas” (Mt 26,56). Isso nos mostra que a Paixão não é
uma derrota, mas um caminho assumido livremente por amor.
No momento extremo, na cruz, Jesus
clama: “Eli, Eli, lemá sabactâni?” — “Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?” (Mt 27,46). E, ao entregar o espírito, acontecem sinais
extraordinários: “O véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo;
a terra tremeu e as rochas se fenderam” (Mt 27,51). Diante disso, o
centurião professa a fé: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!”
(Mt 27,54).
Irmãos e irmãs, a liturgia de hoje nos
coloca diante de uma escolha. Podemos ser como a multidão, que aclama hoje e
rejeita amanhã. Ou podemos ser discípulos fiéis, que permanecem com Cristo até
a cruz.
O Domingo de Ramos não é apenas uma
recordação, mas um chamado à conversão. Somos convidados a reconhecer em Jesus
o verdadeiro Rei — aquele que reina a partir da cruz. E isso exige de nós uma
fé madura, capaz de perseverar mesmo nas dificuldades.
Ao iniciarmos esta Semana Santa,
acolhamos o convite da Igreja: caminhar com Cristo. Participar das celebrações,
meditar sua Paixão, deixar que sua entrega transforme o nosso coração. Porque
somente quem passa pela cruz com Cristo poderá participar da sua ressurreição.
Que, ao segurarmos nossos ramos,
possamos renovar nossa adesão ao Senhor. E que não sejamos apenas ouvintes da Paixão,
mas testemunhas do amor que nela se revela.
Assim, ao final desta semana, poderemos
proclamar com verdade, como o centurião: “Verdadeiramente, este era o Filho
de Deus!” (Mt 27,54). Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
Entrada de Cristo em Jerusalém, por Pietro Lorenzetti, c.1280–1348.
Coleção da Basílica de São Francisco, em Assis, na Itália.

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