Na
segunda etapa do caminho quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos a revitalizar
a nossa fé, a escutar a voz de Deus, a pormo-nos a caminho, sem reticências nem
prevenções, na direção que Ele nos indicar. Pode ser que, à luz da lógica
humana, os caminhos que Deus nos aponta pareçam estranhos e ilógicos; mas eles
conduzem, indubitavelmente, à vida verdadeira e eterna. Neste Segundo Domingo
da Quaresma somos convidados à contemplação da iniciativa divina de revelar-se
à humanidade! A Revelação de Deus não é fruto de mérito humano, mas expressão
de sua misericórdia e de seu desejo de conduzir a pessoa à plenitude da vida.
A
primeira leitura – Gn 12,1-4a – coloca diante dos nossos olhos aquele que a
catequese de Israel considera o “modelo” do crente: Abraão. Depois de ouvir
Deus dizer-lhe “põe-te a caminho”, Abraão deixa tudo, corta todas as amarras e
avança rumo ao desconhecido, disposto a abraçar todos os desafios que Deus
entender apresentar-lhe. A sua obediência é total, a sua confiança é
inabalável. A forma como Abraão se entrega nas mãos de Deus interpela e desafia
os crentes de todas as épocas. Abrão é chamado por Deus a abandonar suas
seguranças – terra e família – e sair em busca de uma nova terra, onde será pai
na fé, sejamos atentos à Palavra Divina e deixemo-nos guiar por ela, seguindo o
caminho que nos indica. O verbo “sair”, primeiro imperativo dirigido a Abrão,
aponta mais para uma disposição interior do que para um movimento geográfico. É
preciso deixar-se conduzir, romper com as seguranças humanas e abrir-se ao novo
de Deus Essa dinâmica da fé alcança a sua plenitude no Evangelho da
Transfiguração.
No
Evangelho – Mt 17,1-9 – Jesus pede aos discípulos que confiem n’Ele e que ousem
segui-l’O no caminho de Jerusalém. Esse caminho, embora passe pela cruz, conduz
à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, relutantes e assustados,
Deus confirma a verdade da proposta de Jesus: “Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Ousaremos também nós seguir
Jesus no caminho de Jerusalém? No alto da montanha, Jesus revela seu esplendor
divino. Sua prática é confirmada pela Lei – Moisés – e pela Profecia – Elias –,
completando a história da salvação. A voz saída da nuvem convida os discípulos
a escutar Jesus. Ele é a presença viva de Deus. Somos todos convidados a “subir
a montanha” para transfigurar nossa vida, a fim de transformar a realidade que
nos cerca.
Jesus
leva consigo três discípulos ao monte e, ali, diante dos olhos atônitos de
Pedro, Tiago e João, sua face resplandece como o sol, e suas vestes tornam-se
brancas como a luz. A cena antecipa a glória da Ressureição, mas ocorre em um
contexto de subida, de esforço e solidão. A presença de Moisés e Elias
simboliza a Lei e os Profetas como dissemos, que convergem para Cristo. A
experiência luminosa no monte sustenta os discípulos diante da escuridão do
calvário. Contemplar o Cristo transfigurado é reconhecer que a glória não
exclui a cruz, mas a atravessa.
Na
segunda leitura – 2Tm 1,8b-10 –, o autor da Carta a Timóteo recorda-nos que
Deus conta conosco para sermos, no mundo, arautos da Boa Notícia da sua
salvação. Talvez isso signifique correr riscos, enfrentar medos, suscitar
oposições, viver em sobressalto; mas a proposta de Deus não pode ser riscada
dos caminhos que a humanidade percorre: tem de ser proclamada de cima dos
telhados e chegar ao coração de todos os homens. Todos recebemos, pelo batismo,
uma vocação à santidade, para que nos comprometamos com o projeto de Jesus. A
exemplo de Timóteo, somos exortados por Paulo a participar do sofrimento de
quem proclama o Evangelho.
A
liturgia de hoje nos ensina que devemos ouvir mais do que falar. A Quaresma é
este tempo propício para fugir da onda do barulho e sair da distração. Só Deus
basta e devemos fazer silêncio para ouvir a voz de Deus. A cena da
Transfiguração de Jesus é uma teofania, isto é, uma manifestação divina, contém
um ensinamento fundamental: ouvir Jesus. “Este é o meu Filho amado, em quem
encontro o meu agrado. Ouçam-no” (Mt 17,5). É interessante que a voz ressoou no
momento em que o apóstolo Pedro falava. Em vez de ouvir e sentir o mistério,
Pedro parecia olhar para a outra direção, como se estivesse sendo capturado
pelas imagens. Não abriu os ouvidos. “Senho, é bom estarmos aqui. Se queres,
vou fazer aqui três tenda: uma para ti, outra para Moisés e outa para Elias”
(Mt 17,4). É necessário adentrar o mistério em sua profundidade. As
exterioridades exageradas podem ofuscar o essencial e desviar nossa atenção
para o supérfluo. Jesus não quer apenas adeptos com práticas exteriores. Ele
quer seguidores autênticos, convertidos, com vínculos, e não somente conexão.
Hoje,
neste tempo favorável, Jesus continua se transfigurando no monte sagrado de
nosso coração. Deixemos que a sua voz seja ouvida e assimilada em nossa vida e
na nossa alma! Que muitas vezes possamos ouvir a voz do Pai: “Este é o meu
Filho amado, em quem encontro o meu agrado. Ouçam-no” (Mt 17,5).
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Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR
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