Como compreender, no rito de ordenação sacerdotal, a
promessa: “Prometes obediência a mim e aos meus sucessores?” Ao que o ordinando
responde: “Sim, prometo”. Esta resposta não é a assinatura de um contrato de
servidão, mas a entrega livre da própria vontade a Deus através da Igreja.
Contudo, vivemos um momento de dor e sofrimento descabido nas relações entre
bispos e padres. É urgente uma reflexão e uma inflexão profunda: a hierarquia
não existe para o desmando, mas para a comunhão e o serviço.
A obediência cristã sempre foi compreendida como um
caminho de liberdade interior, nunca como submissão cega. O clérigo procura
viver uma obediência que o deixa “livre para servir”. Desde os primeiros
séculos, obedecer (do latim ob-audire) significava escutar ativamente a vontade
divina.
A história, porém, também conheceu a patologia da
subserviência. Esta nasce quando a liberdade é sufocada, quando o medo
substitui o discernimento e a autoridade assume formas de controlo. A
subserviência fere a dignidade humana; a obediência autêntica, alicerçada no
amor e no diálogo, enobrece-a.
A Sagrada Escritura ensina-nos que a unção do cargo
não confere infalibilidade técnica ou moral ao líder. A grande virtude de quem
lidera é a capacidade e a humildade para perceber os seus erros e aprender com
os seus liderados.
• Moisés e Jetro (Êxodo 18): Moisés, o grande
libertador, estava a centralizar todo o julgamento do povo, esgotando-se a si
mesmo e aos outros. Foi o seu sogro, Jetro — alguém fora da liderança direta —,
quem o advertiu: "Não é bom o que fazes". Moisés teve a
humildade de escutar e delegar, aprendendo que a estrutura deve servir o povo,
e não oprimi-lo.
• David e Natã (2 Samuel 12): Quando o Rei
David abusou do seu poder absoluto para possuir Betsabéia e eliminar Urias, foi
o profeta Natã, um súbdito, quem o confrontou. A grandeza de David não esteve
na ausência de erro, mas em ter um coração capaz de se arrepender profundamente
ao ser corrigido por um liderado.
• A Truculência de Roboão (1 Reis 12): O
exemplo trágico de como a hierarquia pode ser desobedecida devido à truculência
do líder. Ao ignorar o conselho dos anciãos e optar pela tirania contra o povo
("o meu pai castigou-vos com açoites, eu castigar-vos-ei com
escorpiões"), Roboão causou o cisma do reino. A tirania do líder que
não escuta é a semente da ruína e da divisão do rebanho.
O Papa Francisco, que nos deixou em abril de 2025,
transformou a compreensão contemporânea da autoridade ao denunciar o
clericalismo como uma perversão na Igreja. Em 2015, ele cunhou a poderosa
imagem da "Pirâmide Invertida", afirmando que, na Igreja de Cristo,
“o topo encontra-se abaixo da base”. A autoridade, na perspetiva sinodal por
ele iniciada, não emana de um comando solitário, mas da capacidade de escutar o
Povo de Deus.
Hoje, sob o pontificado do Papa Leão XIV, somos
chamados a consolidar esta herança. O atual pontífice tem sido incisivo sobre o
papel do episcopado, combatendo o autoritarismo. Como o próprio Papa Leão XIV
já advertiu, "o bispo não deve ser um pequeno príncipe sentado no seu
reino". Pelo contrário, a sua vocação autêntica exige que seja humilde,
que esteja próximo das pessoas a quem serve e que caminhe com os seus padres.
Um bispo que não é capaz de aprender com o seu presbitério parou de pastorear e
limitou-se a gerir poder.
Neste tempo de revisão de vida, o chamamento ao
Evangelho é claro: "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1, 15). A
promessa sacerdotal ganha o seu sentido pleno quando o bispo compreende que a
sua função é garantir a unidade, promover a participação e valorizar os dons, e
não exigir submissão acrítica.
Uma comunidade marcada pela subserviência enfraquece,
perde a criatividade e distancia-se da alegria do Espírito. Uma Igreja que vive
a obediência como um caminho de amor, de escuta mútua e de corresponsabilidade
torna-se mais forte, profética e verdadeiramente livre.
+Anuar
Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá (PR)
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