Irmãos e irmãs, avançamos na Semana
Santa, e a liturgia de hoje nos coloca diante de um tema decisivo: o encontro
com Cristo que revela a verdade do coração. Já não estamos mais na entrada
triunfal, nem apenas no gesto silencioso de Betânia; agora entramos no ambiente
tenso da proximidade da cruz, onde tudo começa a ser desvelado.
O Evangelho proclamado, segundo Evangelho de João (cf. Jo 13,21-33.36-38), nos
apresenta Jesus profundamente perturbado em espírito: “Em verdade, em
verdade vos digo: um de vós me entregará” (Jo 13,21). Não é uma afirmação
genérica — é uma palavra que atinge diretamente o grupo dos discípulos. O
traidor não está fora, mas dentro. E isso muda tudo.
Pedro, inquieto, quer respostas. O
discípulo amado se inclina sobre o peito de Jesus. Judas recebe o pedaço de pão
e sai — “era noite” (Jo 13,30). Essa pequena frase carrega um peso
enorme: não é apenas a noite cronológica, mas a noite interior, a escuridão de
quem se afasta da luz.
Aqui está o primeiro ponto do nosso
sermão: o encontro com Cristo não nos deixa neutros. Ou
nos aproximamos da luz, ou mergulhamos na escuridão. Não existe meio-termo.
A primeira leitura, do profeta Isaías
(cf. Is 49,1-6), apresenta o Servo que é chamado desde o ventre materno,
escolhido para ser luz das nações: “Eu te farei luz das nações, para que
minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Este Servo é
Cristo, mas também aponta para a missão de todo discípulo: ser luz. No entanto,
não se pode iluminar os outros se o coração estiver na sombra.
O encontro que a liturgia de hoje
propõe é, portanto, um encontro que revela: revela intenções, revela fraquezas,
revela verdades que muitas vezes preferimos esconder.
Pedro aparece com sua generosidade
impulsiva: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu darei a minha vida
por ti!” (Jo 13,37). Mas Jesus responde com realismo: “Tu darás a tua
vida por mim? Em verdade te digo: antes que o galo cante, tu me negarás três
vezes” (Jo 13,38). Pedro ama, mas ainda não conhece a própria fragilidade.
Judas, por sua
vez, já fez sua escolha. Ele permanece fisicamente próximo de Jesus, mas
interiormente já se afastou. Recebe o pão, sinal de comunhão, mas seu coração
está fechado. Eis aqui uma advertência séria: é possível estar perto de
Cristo e, ao mesmo tempo, distante dele.
Irmãos e irmãs, o
“Sermão do Encontro” nos obriga a perguntar: como está o nosso encontro
com Jesus? É um encontro verdadeiro, que transforma, ou apenas uma
convivência superficial?
Nesta Semana
Santa, muitos participam das celebrações, escutam a Palavra, acompanham os
ritos. Mas isso, por si só, não basta. Judas também estava presente. Pedro
também prometia fidelidade. O que faz a diferença é a verdade do coração.
O encontro
autêntico com Cristo passa pela humildade de reconhecer: “Senhor, eu posso
falhar. Senhor, eu preciso de ti.” Quem se julga forte demais corre o risco
de cair, como Pedro. Quem se fecha em si mesmo corre o risco de endurecer, como
Judas.
Mas há também uma
boa notícia: mesmo conhecendo a traição e a negação, Jesus não recua. Ele
continua amando, continua oferecendo sua vida. O amor de Cristo não depende da
nossa perfeição — mas exige a nossa verdade.
Estamos, portanto,
diante de um momento decisivo. A cruz se aproxima, e cada um é chamado a se
posicionar. Não diante de uma ideia, mas diante de uma pessoa: Jesus Cristo.
Que este dia seja,
de fato, um encontro. Não um encontro superficial, mas um encontro que nos
desinstala, que nos revela, que nos converte.
Que não saiamos da
presença do Senhor como Judas, entrando na noite, nem apenas com promessas
frágeis como Pedro, mas com um coração sincero, disposto a permanecer, mesmo na
fraqueza.
Porque, no fim,
não será a nossa força que nos sustentará, mas a fidelidade daquele que, mesmo
sabendo de tudo, continua a nos amar até o fim (cf. Jo 13,1).
Amém.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
A Negação de Pedro, por Caravaggio, c. 1571-1610.
Coleção do Museu Metropolitano de arte, em Nova York, EUA.

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