Irmãos e irmãs, “este é o dia que o
Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117[118],24). A
Igreja hoje não apenas recorda um acontecimento passado, mas proclama uma
verdade que transforma toda a realidade: Cristo ressuscitou. A morte foi
vencida. O pecado não tem mais a última palavra. A vida nova começou.
A primeira leitura, dos Atos dos
Apóstolos, nos apresenta o testemunho de Pedro: “Nós comemos e bebemos com
Ele depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,41). Não se trata de uma
ideia ou de um símbolo, mas de um fato vivido, testemunhado. A fé da Igreja
nasce desse encontro real com o Ressuscitado. E Pedro compreende algo
essencial: “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34). A Ressurreição
é para todos.
O Salmo proclama: “A pedra que os
construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Sl 117[118],22). Aquilo
que foi descartado, rejeitado, condenado — torna-se fundamento. A lógica de
Deus não é a lógica do mundo. A cruz não foi o fracasso de Cristo, mas o
caminho da sua glorificação.
São Paulo, na Carta aos Colossenses,
nos exorta: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto” (Cl
3,1). Aqui está uma exigência clara: a Ressurreição não é apenas algo que
aconteceu com Jesus, mas algo que deve transformar a nossa vida. Não se pode
celebrar a Páscoa e continuar vivendo como antes.
E então chegamos ao Evangelho, no
Evangelho de João (cf. Jo 20,1-9). Maria Madalena vai ao sepulcro ainda de
madrugada, quando tudo parece escuro. Ela não encontra o corpo de Jesus, e
corre para avisar os discípulos. Pedro e o discípulo amado vão ao túmulo. Eles
veem os panos de linho, o sudário dobrado… sinais de que algo extraordinário
aconteceu.
O texto diz algo decisivo: “Ele viu
e acreditou” (Jo 20,8). Ainda não tinham compreendido plenamente as
Escrituras, mas já começam a crer. A fé pascal nasce assim: não da evidência
total, mas de sinais que abrem o coração para algo maior.
Irmãos e irmãs, a Ressurreição não é um
espetáculo. Não há testemunhas do momento em que Jesus sai do túmulo. Há
sinais. Há um túmulo vazio. Há encontros que transformam vidas. A fé não é
imposição — é resposta.
E aqui está o ponto central: o que a
Ressurreição muda na nossa vida?
Muitos dizem crer, celebram a Páscoa,
participam das liturgias… mas continuam presos às mesmas atitudes, aos mesmos
pecados, à mesma lógica de sempre. Isso revela uma contradição. Se Cristo
ressuscitou, então algo precisa mudar.
A Ressurreição exige uma vida nova:
- sair do pecado para a graça,
- do egoísmo para a caridade,
- da indiferença para o compromisso,
- do medo para a confiança.
Não se trata de um sentimento, mas de
uma decisão concreta.
Vivemos em um mundo que, muitas vezes,
vive como se Deus não existisse. A morte, a violência, a injustiça parecem ter
mais força. Mas a Páscoa afirma o contrário: a vida venceu. E essa vitória não
é abstrata — ela precisa aparecer na vida de cada cristão.
O túmulo vazio também nos provoca:
quantas vezes mantemos Cristo “sepultado” em nossa vida? Guardado como uma
lembrança, uma tradição, mas não como uma presença viva que transforma nossas
escolhas?
A Páscoa é um chamado a remover essas
pedras. A deixar Cristo viver em nós.
Irmãos e irmãs, não basta saber que
Jesus ressuscitou. É preciso viver como ressuscitados.
Isso significa carregar ainda as marcas
da cruz, sim — porque a Ressurreição não apaga a cruz —, mas viver com
esperança, com sentido, com uma direção nova.
Que esta celebração não seja apenas
mais uma no calendário. Que seja um verdadeiro recomeço.
Que, como o discípulo amado, possamos
ver os sinais e crer.
Que, como Pedro, possamos testemunhar.
Que, como Maria Madalena, possamos
anunciar.
Cristo ressuscitou verdadeiramente. E
isso muda tudo.
Aleluia!
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
Ressurreição de
Cristo, por Maerten de Vos, c.1532–1603.
Coleção do Galeria Nacional da Irlanda, em Dublin, na Irlanda

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