Irmãos
e irmãs, a Oitava da Páscoa não é apenas um prolongamento festivo, mas uma
verdadeira chave de leitura para compreender o mistério central da fé cristã.
Durante esses oito dias, a Igreja não “recorda” a Páscoa como algo passado; ela
a vive como realidade presente. É como se o tempo fosse suspenso para que
possamos permanecer diante do túmulo vazio e deixar que essa verdade transforme
profundamente a nossa existência.
Há,
porém, um risco: reduzir a Páscoa a uma emoção momentânea ou a um simples simbolismo
religioso. A Oitava nos confronta com algo muito mais exigente. Se Cristo
ressuscitou, então toda a lógica da nossa vida precisa mudar. Não faz sentido
continuar vivendo como se a morte tivesse a última palavra, como se o pecado
fosse inevitável ou como se Deus estivesse distante.
A
liturgia desses dias insiste nas aparições do Ressuscitado. Ele não aparece a
pessoas perfeitas, mas a discípulos frágeis, medrosos e até incrédulos. Isso
revela algo essencial: a ressurreição não é prêmio para os bons, mas ponto de
partida para os que se deixam transformar. Tomé duvida, Pedro carrega o peso da
negação, os discípulos se escondem — e é justamente a eles que Jesus se
manifesta. A Oitava da Páscoa, portanto, é também um tempo de confronto com a
nossa própria incredulidade.
Outro
aspecto importante é que o Ressuscitado sempre toma a iniciativa. Ele vai ao
encontro, entra onde as portas estão fechadas, oferece a paz antes mesmo de
qualquer pedido de perdão. Isso desmonta a ideia de um Deus distante ou
condicionado. A Páscoa revela um Deus que invade a história humana, não para
condenar, mas para reconstruir.
Mas
essa experiência não pode permanecer intimista. Toda aparição termina com
envio. “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio.” A Oitava da Páscoa não
é um refúgio espiritual; é um impulso missionário. Quem encontra o Ressuscitado
não pode permanecer fechado em si mesmo. A fé pascal, quando autêntica, rompe o
isolamento e gera testemunho.
Há
ainda um elemento frequentemente ignorado: a insistência da Igreja em celebrar
cada dia como solenidade. Isso não é mero detalhe litúrgico, mas uma pedagogia
espiritual. Somos educados a sair da superficialidade, da pressa e da
dispersão. O mundo passa rapidamente de uma coisa para outra; a Igreja, ao
contrário, nos obriga a permanecer. Permanecer na alegria, permanecer na
verdade, permanecer na presença de Cristo.
E
aqui está talvez o ponto mais desafiador: permanecer. Porque é fácil celebrar
um dia, difícil é sustentar uma vida nova. A Oitava da Páscoa nos ensina que a
ressurreição não é um instante, mas um caminho. Não é um entusiasmo passageiro,
mas uma transformação contínua.
Por
fim, viver bem a Oitava é aceitar que a ressurreição de Cristo exige uma
decisão concreta: ou vivemos como ressuscitados, ou continuamos presos à lógica
do sepulcro. Não há neutralidade possível. A alegria pascal não é superficial;
ela nasce da certeza de que o mal e a morte foram vencidos, mas exige de nós
coerência de vida.
Assim,
mais do que repetir “Feliz Páscoa”, somos chamados a nos tornar sinais vivos da
Páscoa. E isso implica abandonar tudo aquilo que ainda pertence às trevas e
caminhar, com firmeza, na luz do Ressuscitado.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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