Irmãos e irmãs, nesta manhã santa, a
Igreja se reúne ao redor do altar e do seu pastor para celebrar a Missa do
Crisma. No coração desta celebração está um gesto profundamente significativo:
a renovação das promessas sacerdotais. Não se trata de uma formalidade, mas de
um retorno às origens, àquele momento em que cada sacerdote disse, com verdade
e tremor: “Eis-me aqui”.
A Palavra de Deus ilumina este momento.
O profeta Isaías proclama: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o
Senhor me ungiu” (Is 61,1). Esta unção não é apenas honra, é missão. É
envio aos pobres, aos feridos, aos cativos. E no Evangelho, segundo Evangelho de Lucas (cf. Lc 4,16-21), Jesus assume
essas palavras e declara: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura”.
Ele é o Ungido do Pai — e todo sacerdócio nasce d’Ele e participa d’Ele.
Por isso, irmãos sacerdotes, renovar as
promessas hoje não é recordar um ideal abstrato, mas confrontar a própria vida
com Cristo. É perguntar, com sinceridade: ainda somos configurados a Ele? Ainda
vivemos aquilo que prometemos?
Prometemos anunciar a Palavra com
fidelidade. Mas será que ainda a proclamamos com coragem, sem reduzi-la, sem
adaptá-la às conveniências? Prometemos celebrar os mistérios com devoção. Mas
será que ainda o fazemos com consciência e fé, ou caímos na rotina? Prometemos
conduzir o povo de Deus como pastores. Mas será que permanecemos próximos,
disponíveis, verdadeiramente entregues?
A renovação das promessas sacerdotais
não permite ilusões. Ela exige verdade. Porque o sacerdócio não se sustenta na
aparência, mas na coerência.
Vivemos um tempo exigente. O mundo não
espera discursos vazios, mas testemunhos autênticos. O povo de Deus reconhece
quando o pastor vive o que anuncia — e também percebe quando há distância entre
palavra e vida. Por isso, hoje não é dia de autojustificação, mas de retorno.
Retorno ao primeiro amor, àquela chama inicial que levou cada um a deixar tudo
para seguir o Senhor.
E aqui está um ponto decisivo: o
sacerdócio não é propriedade pessoal. Não nos pertence. É um dom recebido, uma
missão confiada. Somos administradores, não donos. Servos, não protagonistas. E
quando isso se perde, o ministério se desfigura.
Ao mesmo tempo, esta renovação não pode
ser vista apenas como peso ou exigência. Ela é também graça. Porque aquele que
chama é o mesmo que sustenta. Cristo não abandona os seus. Ele conhece as
fragilidades, as quedas, os limites — e, ainda assim, continua chamando,
sustentando, confiando.
Aos fiéis leigos aqui presentes, esta
celebração é também um convite claro: rezar pelos seus sacerdotes. Não de forma
genérica, mas concreta. O sacerdote precisa da oração do seu povo. Precisa de
apoio, de proximidade, de comunhão. Uma Igreja que não reza pelos seus pastores
corre o risco de enfraquecer o próprio rebanho.
Irmãos e irmãs, ao renovarmos as
promessas sacerdotais nesta Quinta-feira Santa, não estamos apenas recordando o
passado, mas assumindo novamente um compromisso para o presente e para o
futuro. Um compromisso com Cristo, com a Igreja e com o povo de Deus.
Que este momento seja vivido com
verdade. Que cada sacerdote possa, no íntimo do coração, reencontrar o sentido
do seu chamado. E que todos nós, como Igreja, possamos caminhar juntos,
sustentados pela graça daquele que é o verdadeiro e eterno Sacerdote.
Assim, ao nos aproximarmos da
celebração da Ceia do Senhor e do sacrifício da cruz, possamos renovar nossa
fidelidade Àquele que primeiro nos amou e nos chamou.
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá
Crédito da imagem: Reprodução
Jesus é o Ungido
do Pai — e todo sacerdócio nasce d’Ele e participa d’Ele.

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