A
Festa da Divina Misericórdia, celebrada no 2º Domingo da Páscoa, não é uma
devoção isolada dentro da vida da Igreja, mas uma profunda síntese do próprio
mistério pascal de Cristo. Instituída por São João Paulo II no ano 2000, essa
celebração revela, de modo particular, que a paixão, morte e ressurreição de
Jesus são a maior manifestação da misericórdia de Deus para com a humanidade.
A base bíblica dessa festa encontra-se, antes de tudo, no
Evangelho proclamado nesse dia: João (Jo 20,19-31). Nele, vemos Jesus
Ressuscitado que aparece aos discípulos reunidos, mesmo estando “com as
portas fechadas por medo” (Jo 20,19). A primeira palavra de Cristo é
significativa: “A paz esteja convosco”. Não há reprovação, não há
acusação, mas reconciliação. Aqueles que haviam fugido, negado e abandonado
Jesus são agora acolhidos pela sua misericórdia.
Em seguida, o Senhor realiza um gesto decisivo: “Soprou
sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados,
eles lhes serão perdoados’” (Jo 20,22-23). Aqui está o fundamento claro da
misericórdia como perdão dos pecados, confiado à Igreja. A misericórdia não é
apenas um sentimento, mas uma ação concreta de Deus que restaura o pecador e o
reconcilia consigo.
Essa realidade já havia sido anunciada ao longo de toda a
Sagrada Escritura. No Antigo Testamento, Deus se revela como “misericordioso
e compassivo, lento para a cólera e rico em bondade” (Sl 103,8 cf. Ex
34,6). O salmista proclama: “Ele perdoa todas as tuas culpas e cura todas as
tuas enfermidades” (Sl 103,3). A misericórdia divina não é uma exceção, mas um
traço permanente da ação de Deus na história.
No Novo Testamento, essa misericórdia atinge sua plenitude
em Cristo. São Paulo afirma que Deus é “rico em misericórdia” (Ef 2,4) e que,
mesmo quando estávamos mortos por causa dos nossos pecados, nos deu a vida em
Cristo. A cruz, longe de ser um sinal de derrota, é a expressão suprema desse
amor misericordioso: “Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo
ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8).
A própria experiência dos apóstolos confirma essa verdade.
Na primeira leitura do 2º Domingo da Páscoa, vemos a comunidade primitiva
descrita em Atos dos Apóstolos (At 2,42-47). Aqueles que acolheram a
misericórdia de Deus passam a viver de forma nova: perseveram na doutrina dos
apóstolos, na comunhão, na fração do pão e nas orações. Partilham seus bens e
vivem como irmãos. A misericórdia recebida transforma-se em misericórdia vivida.
A segunda leitura, no Ano A, reforça esse horizonte ao
afirmar que fomos regenerados para uma “esperança viva” pela ressurreição de
Jesus Cristo (1Pd 1,3). Mesmo sem ver, cremos; mesmo em meio às provações,
permanecemos firmes. Essa fé é fruto da misericórdia divina que nos sustenta e
nos conduz à salvação.
Um elemento central da espiritualidade da Divina
Misericórdia é a confiança. No Evangelho, essa confiança aparece de modo
especial na figura de Tomé. Inicialmente incrédulo, ele exige ver e tocar as
chagas de Cristo (Jo 20,25). No entanto, ao encontrar-se com o Ressuscitado,
faz uma das mais belas profissões de fé: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo
20,28). A misericórdia de Jesus não rejeita a fraqueza de Tomé, mas a
transforma em fé. Por isso, o próprio Cristo proclama: “Felizes os que
creram sem terem visto” (Jo 20,29).
A Festa da Divina Misericórdia, portanto, não se limita a
recordar uma devoção particular, mas convida a uma verdadeira conversão.
Reconhecer a misericórdia de Deus implica admitir a própria necessidade de
perdão. Como ensina a Primeira Carta de João: “Se dissermos que não temos
pecado, enganamo-nos a nós mesmos” (1Jo 1,8). Mas, ao mesmo tempo, há uma
promessa consoladora: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo
para nos perdoar” (1Jo 1,9).
Além disso, a misericórdia recebida exige ser partilhada.
Jesus é claro ao ensinar: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é
misericordioso” (Lc 6,36). Não é possível celebrar a misericórdia divina
sem assumir um compromisso concreto de perdão, acolhimento e caridade para com
os outros. A parábola do servo impiedoso (cf. Mt 18,23-35) ilustra bem
essa exigência: quem foi perdoado deve aprender a perdoar.
Assim, a Festa da Divina Misericórdia se apresenta como um
convite a redescobrir o coração do Evangelho. Em um mundo marcado pela
violência, pelo julgamento e pela indiferença, a Igreja é chamada a ser sinal
vivo da misericórdia de Deus. Isso se concretiza, de modo especial, no
sacramento da Reconciliação, mas também na vida cotidiana de cada fiel.
Celebrar essa festa é, portanto, confiar plenamente em Deus,
buscar o seu perdão e tornar-se instrumento de sua misericórdia no mundo. Como
nos recorda a Sagrada Escritura: “Eterna é a sua misericórdia” (Sl
118,1). Essa é a certeza que sustenta a fé da Igreja e renova continuamente a
esperança dos que creem.
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Batistti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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