Irmãos e irmãs, chegamos a um dos
momentos mais densos e silenciosos de toda a Semana Santa: o descendimento do
corpo do Senhor da cruz. Depois do grito final — “Tudo está consumado”
(Jo 19,30) — não há mais palavras de Cristo. Agora fala o silêncio. Fala o
gesto. Fala o amor que permanece mesmo quando tudo parece terminado.
O Evangelho
de João nos narra com sobriedade esse momento: “Depois disso, José de
Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas às escondidas por medo dos judeus,
pediu a Pilatos autorização para retirar o corpo de Jesus. Pilatos consentiu.
Então ele foi e retirou o corpo de Jesus” (Jo 19,38). Ao seu lado está
Nicodemos, aquele que antes procurara Jesus de noite (cf. Jo 3,1-2), trazendo
uma mistura de mirra e aloés (cf. Jo 19,39). Aqueles que antes estavam na
sombra agora se apresentam à luz. A cruz revela, a cruz decide, a cruz faz
emergir a verdade de cada coração.
O corpo de Cristo é descido da cruz.
Não é mais o corpo vivo que falava, que caminhava, que curava. É um corpo
ferido, marcado, silencioso. Aquele que é o Verbo eterno agora jaz sem voz. E,
no entanto, esse silêncio é profundamente eloquente: é o silêncio do amor
levado até o fim.
A profecia de Isaías se cumpre até o
extremo: “Ofereceu a sua vida em sacrifício de expiação” (Is 53,10). Não
se trata apenas de um sofrimento físico, mas de uma entrega total. O
descendimento da cruz nos obriga a olhar de frente para as consequências do
pecado — não como ideia, mas como realidade concreta que fere, que mata, que
destrói.
E ali está Maria, a Mãe. A tradição
cristã contempla esse momento com profunda reverência: a Mãe que recebe em seus
braços o corpo do Filho. Cumpre-se a palavra profética: “Uma espada
traspassará a tua alma” (Lc 2,35). Não há revolta, não há desespero
visível. Há uma dor silenciosa, uma fé que permanece mesmo quando tudo parece
perdido. Maria é a imagem da Igreja que, mesmo na noite da fé, continua a
confiar.
Ao redor, poucos permanecem. O discípulo
amado, algumas mulheres, José de Arimateia, Nicodemos. A multidão já se foi. O
barulho cessou. Restam apenas aqueles que amam. Aqui está uma verdade que não
pode ser ignorada: seguir Cristo até o fim implica permanecer quando todos os
outros se afastam.
O corpo é envolto em faixas, conforme o
costume judaico, e preparado para o sepultamento (cf. Jo 19,40). Não há pressa,
mas há urgência — o sábado se aproxima. Tudo é feito com cuidado, com respeito,
com dignidade. Mesmo na morte, Cristo é tratado como Senhor.
Irmãos e irmãs, o descendimento da cruz
não é apenas um fato do passado. Ele continua a nos interpelar. Quantas vezes
retiramos Cristo da nossa vida, do centro das nossas decisões, das nossas
prioridades? Quantas vezes deixamos que Ele permaneça apenas como memória, como
tradição, e não como presença viva?
Mas há também outra leitura, mais
profunda e mais exigente: somos chamados a acolher o Cristo ferido. Não apenas
o Cristo glorioso da ressurreição, mas o Cristo marcado pela dor, presente nos
sofrimentos do mundo. “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus
irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). O corpo
descido da cruz continua presente nos pobres, nos doentes, nos abandonados.
O silêncio deste momento é necessário.
Não há explicações fáceis para a cruz. Não há respostas rápidas para o
sofrimento. Há apenas a contemplação de um amor que não recuou, que não
desistiu, que foi até o fim.
E, no entanto, mesmo aqui, no peso
desse silêncio, já existe uma esperança escondida. O corpo é retirado da cruz,
mas não permanece nela. Ele será colocado no sepulcro — e o sepulcro não será a
última palavra.
Hoje, porém, não antecipamos a vitória.
Permanecemos aqui, neste momento de dor e de recolhimento. Aprendemos a ficar.
Aprendemos a silenciar. Aprendemos a amar mesmo quando não vemos.
Que, ao contemplarmos o Senhor descido
da cruz, tenhamos a coragem de também descer com Ele — descer das nossas
seguranças, do nosso orgulho, das nossas ilusões — para aprender o caminho da
verdadeira entrega.
Porque só quem desce com Cristo é capaz
de subir com Ele.
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
A Descida da
Cruz, por Rogier van der Weyden, c. 1399/1400–1464.
Coleção do Museu do Prado, em Madrid, Espanha.

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