Irmãos e irmãs,
Hoje celebramos o 3º Domingo da Páscoa,
ainda mergulhados na alegria da Ressurreição. A Igreja nos convida a
compreender que a Páscoa não é apenas um acontecimento do passado, mas uma
presença viva que transforma a nossa história. Cristo ressuscitou — e continua
caminhando conosco.
O Evangelho deste domingo (Lc 24,13-35)
nos apresenta o conhecido episódio dos discípulos de Emaús. Trata-se de um dos
textos mais ricos da espiritualidade pascal. Ali vemos dois discípulos
desanimados, frustrados, abandonando Jerusalém. Eles haviam colocado suas
esperanças em Jesus, mas a cruz parecia ter destruído tudo: “Nós esperávamos
que ele fosse libertar Israel” (Lc 24,21).
Essa frase revela o drama deles — e o
nosso também. Quantas vezes projetamos em Deus expectativas humanas, imediatas,
e quando as coisas não acontecem como queremos, ficamos desiludidos,
desanimados, até mesmo afastados da comunidade.
Mas o texto nos mostra algo decisivo:
mesmo quando os discípulos se afastam, Jesus não se afasta deles. “O próprio
Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles” (Lc 24,15). Eis o
primeiro grande ensinamento: o Ressuscitado toma a iniciativa. Ele vai ao
encontro do coração ferido, do discípulo perdido, daquele que já não acredita
mais.
Jesus caminha com eles, escuta suas dores,
suas frustrações. Depois, começa a iluminar a situação à luz das Escrituras: “E,
começando por Moisés e passando por todos os profetas, explicava-lhes em todas
as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 24,27).
Aqui está um ponto essencial: sem a
Palavra, não compreendemos a vida. Os discípulos conheciam os fatos, mas não
entendiam o sentido. Só à luz da Palavra de Deus a cruz deixa de ser fracasso e
se torna caminho de glória: “Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso
para entrar na sua glória?” (Lc 24,26).
Quantas vezes também nós sabemos o que
aconteceu em nossa vida, mas não conseguimos dar sentido às situações.
Falta-nos escutar a Palavra, deixar que Deus interprete a nossa história.
Mas o caminho não termina na Palavra.
Chega o momento decisivo: “Quando se pôs à mesa com eles, tomou o pão,
pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu” (Lc 24,30). É na fração do pão
que os olhos se abrem: “Então os olhos deles se abriram e reconheceram Jesus”
(Lc 24,31).
Aqui está o coração da vida cristã:
Palavra e Eucaristia. É nesse duplo movimento que reconhecemos o Ressuscitado.
Não basta ouvir — é preciso entrar em comunhão.
E há ainda um detalhe importante: no
momento em que reconhecem Jesus, Ele desaparece. Por quê? Porque agora não precisam
mais vê-lo com os olhos do corpo, mas com os olhos da fé. Cristo permanece
presente de outra forma: na Palavra, na Eucaristia e na comunidade.
O resultado desse encontro é imediato: “Na
mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém” (Lc 24,33). Aqueles
que estavam fugindo agora retornam. Aqueles que estavam desanimados tornam-se
missionários.
E aqui está o critério verdadeiro: quem
encontra o Ressuscitado não fica parado. Volta para a comunidade, anuncia,
testemunha. A fé não é algo individualista — ela nos lança em missão.
A primeira leitura (At 2,14.22-33) reforça
isso. Pedro, antes medroso, agora proclama com coragem: “Deus ressuscitou
este Jesus, e disso todos nós somos testemunhas” (At 2,32). O encontro com
o Ressuscitado transforma covardes em testemunhas.
E a segunda leitura (1Pd 1,17-21)
recorda-nos o preço da nossa salvação: “Fostes resgatados… pelo precioso
sangue de Cristo” (1Pd 1,18-19). A Ressurreição não anula a cruz, mas
revela seu sentido: amor levado até o fim.
Diante de tudo isso, a Palavra de Deus nos
provoca:
— Estamos também nós caminhando
desanimados, como os discípulos de Emaús?
— Temos permitido que a Palavra ilumine a
nossa vida?
— Temos reconhecido Jesus na Eucaristia?
— Nossa fé nos leva de volta à comunidade
e à missão?
A verdade é simples e exigente: Cristo
ressuscitado caminha conosco, mesmo quando não o percebemos. Ele fala conosco
nas Escrituras, se entrega a nós na Eucaristia e nos envia como testemunhas.
Peçamos, neste domingo, a graça de fazer
essa experiência viva. Que o nosso coração também arda (cf. Lc 24,32), que
nossos olhos se abram e que nossa vida se torne anúncio.
Porque, no fim, a fé cristã não é apenas
saber que Jesus ressuscitou — é encontrá-lo vivo no caminho.
Amém.
+Dom Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

Comentários
Postar um comentário