Irmãos e irmãs, celebramos hoje o 2º Domingo da Páscoa, também chamado Domingo da Divina Misericórdia. Ainda estamos dentro da Oitava da Páscoa, como se este fosse o próprio dia da Ressurreição. A liturgia da Palavra ilumina profundamente esse mistério com as leituras de Atos dos Apóstolos (At 2,42-47), da Primeira Carta de São Pedro (1Pd 1,3-9) e do Evangelho segundo João (Jo 20,19-31).
No Evangelho (Jo 20,19-31), vemos os
discípulos reunidos, com as portas fechadas por medo. O medo dominava seus
corações, paralisava suas ações e impedia a missão. Essa cena não está distante
de nós. Quantas vezes também vivemos com as “portas fechadas”, presos ao medo,
à insegurança, às dúvidas e às dificuldades da vida.
É nesse contexto que Jesus Ressuscitado
entra e se coloca no meio deles, dizendo: “A paz esteja convosco”. Essa
paz não é uma simples saudação, mas um dom. É a paz que vem da vitória sobre o
pecado e a morte. Em seguida, Ele mostra as mãos e o lado, revelando que o
Ressuscitado é o mesmo que foi crucificado. As chagas permanecem, mas agora são
sinais de amor e de vitória.
Logo depois, Jesus sopra sobre os
discípulos e diz: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados,
eles lhes serão perdoados” (Jo 20,22-23). Aqui encontramos o fundamento do
sacramento da Reconciliação e o coração do Domingo da Divina Misericórdia: Deus
nos oferece continuamente o seu perdão por meio da Igreja.
O Evangelho também nos apresenta Tomé,
que não estava presente na primeira aparição. Ao ouvir o testemunho dos outros,
ele não acredita: “Se eu não vir... não acreditarei” (Jo 20,25). Oito
dias depois, Jesus aparece novamente e vai ao encontro da dúvida de Tomé,
convidando-o a tocar suas chagas. Tomé então professa uma das mais belas
expressões de fé: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28).
Jesus conclui com uma bem-aventurança
dirigida a todos nós: “Felizes os que creram sem terem visto” (Jo
20,29). Nós não vimos, mas cremos. E essa fé é o fundamento da nossa vida
cristã.
A segunda leitura, da Primeira Carta de
São Pedro (1Pd 1,3-9), reforça exatamente isso: “Sem terdes visto o Senhor,
vós o amais; sem o ver ainda, credes nele” (1Pd 1,8). Pedro nos lembra que
fomos regenerados para uma “esperança viva” pela ressurreição de Jesus Cristo.
Mesmo passando por provações, nossa fé é purificada e se torna mais preciosa do
que o ouro. A vida cristã não elimina o sofrimento, mas dá sentido a ele, pois
nos orienta para a glória eterna.
Já a primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos
(At 2,42-47), mostra o fruto concreto dessa fé na vida da Igreja nascente. Os
primeiros cristãos eram perseverantes “no ensinamento dos apóstolos, na
comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42). Viviam
unidos, partilhavam seus bens e testemunhavam a fé com alegria e simplicidade
de coração. E o resultado era claro: “O Senhor acrescentava cada dia à
comunidade outras pessoas que iam sendo salvas” (At 2,47).
Irmãos e irmãs, a Palavra de Deus hoje
nos convida a um caminho muito concreto. Em primeiro lugar, sair do medo e
abrir as portas do coração para Cristo. Em segundo lugar, acolher a sua paz e
sua misericórdia, especialmente por meio do sacramento da confissão. Em
terceiro lugar, viver uma fé verdadeira, mesmo sem ver, confiando plenamente no
Senhor.
Se ainda não buscamos a reconciliação
com Deus, este é o momento. Se estamos como Tomé, cheios de dúvidas, peçamos a
graça de fazer também a nossa profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”. Se
estamos fechados pelo medo, deixemos que Cristo entre e transforme nosso
coração.
Neste Domingo da Divina Misericórdia,
recordemos que Deus nunca se cansa de nos perdoar. Ele sempre vem ao nosso
encontro, entra mesmo com as portas fechadas e nos envia em missão.
Que possamos, fortalecidos por essa
Palavra, viver como a primeira comunidade cristã, perseverantes na fé, na
oração e na caridade, testemunhando ao mundo que Cristo ressuscitou e está vivo
no meio de nós. Amém.
+Anuar
Batistti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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