Meus queridos irmãos e irmãs!
Vivemos tempos de mudanças tão velozes que, muitas
vezes, sentimos o coração apertado, sem saber ao certo para onde a humanidade
caminha. Nossos lares estão cheios de telas, nossos jovens conversam com
máquinas e a chamada Inteligência Artificial (IA) já faz parte do nosso dia a
dia. É justamente para iluminar essa nossa realidade que o amado Papa Leão XIV
nos presenteou com a sua primeira carta encíclica: Magnifica Humanitas.
Diferente do que muitos poderiam pensar, o Santo Padre
não escreve para condenar a tecnologia. Ele escreve como um pai amoroso,
preocupado em nos lembrar de uma verdade muito simples e preciosa: nenhuma
máquina, por mais brilhante que seja, pode substituir a beleza do coração
humano.
O Papa nos adverte sobre uma ilusão muito perigosa dos
nossos dias: a ideia de que precisamos ser perfeitos, como máquinas que nunca
erram. Há ideologias hoje, como o chamado "transumanismo", que tratam
nossas fraquezas, nossas doenças e nossos limites corporais como defeitos que a
tecnologia precisa consertar a todo custo. Mas a encíclica nos traz um conforto
imenso ao recordar que é exatamente nas nossas fragilidades que o amor de Deus
se manifesta. Uma inteligência artificial pode calcular tudo em segundos, mas
ela nunca saberá o que é a dor de uma lágrima, a alegria de um abraço sincero
ou a paz que brota do perdão. Deus se fez carne no Menino Jesus, e não um
código de computador.
Leão XIV nos convida a olhar para as nossas famílias.
Nossos jovens estão cada vez mais mergulhados na internet, muitas vezes expostos
a ilusões, mentiras e a uma busca vazia por aprovação. O Papa nos pede uma
"aliança educativa". Precisamos ensinar nossos filhos a terem
"sobriedade digital", a valorizarem o tempo juntos à mesa, o olho no
olho, e a buscarem a verdade com paciência, longe das respostas fáceis e das
fake news geradas por algoritmos.
Nessa mesma reflexão, o coração do Papa se volta para
os trabalhadores. A tecnologia deve existir para aliviar o peso do trabalho
humano, e nunca para desempregar pais de família ou criar novas formas de
escravidão. O documento denuncia com tristeza que, por trás da
"mágica" da IA, existem milhares de pessoas — muitas vezes jovens e
mulheres em países pobres — trabalhando exaustivamente, de forma invisível,
para alimentar esses sistemas. A Igreja nos pede para não fecharmos os olhos a
esses irmãos. O progresso só é verdadeiro se for para todos e se respeitar a
dignidade de cada trabalhador.
Por fim, o Santo Padre faz um apelo comovente pela
paz. É assustador pensar que, hoje, armas controladas por inteligência
artificial podem decidir quem vive e quem morre em uma guerra, tratando seres
humanos como meros "dados" a serem apagados. A paz não nasce das
armas ou das máquinas, mas do diálogo e da construção de uma "civilização do
amor".
Meus irmãos, a escolha está em nossas mãos. Podemos
construir uma nova Torre de Babel, fria e arrogante, ou podemos, como o profeta
Neemias, reconstruir nossa sociedade pelo amor, tijolo por tijolo, segurando a
mão do nosso próximo.
Que o cântico do Magnificat de Maria, a jovem simples
de Nazaré que soube enxergar a grandeza de Deus na sua pequenez, nos inspire.
Que Nossa Senhora nos ajude a usar as tecnologias para o bem, sem nunca
perdermos a doçura e a imensa dignidade de sermos, simplesmente, humanos.
Deus abençoe a você e a sua família!
Por
Dom Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá (PR)
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