Irmãos e irmãs,
celebramos hoje a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, Corpus
Christi, uma das mais belas e significativas solenidades da Igreja. Depois de
celebrarmos a Santíssima Trindade, contemplamos agora o mistério de Jesus que
permanece conosco na Eucaristia. O Senhor não quis apenas passar pela história,
mas permanecer no meio do seu povo como alimento e presença constante.
A primeira leitura,
do Livro do Deuteronômio (Dt 8,2-3.14b-16a), apresenta Moisés recordando ao povo
a caminhada pelo deserto. O Senhor permitiu a provação, mas jamais abandonou
Israel, alimentando-o com o maná, aquele pão descido do céu. Moisés recorda: “Ele
te alimentou com o maná, que nem tu nem teus pais conheciam” (Dt 8,3). O
povo aprendeu que não vive somente do pão material, mas da providência e da
Palavra de Deus.
O maná, porém, era
apenas figura de um alimento maior e definitivo. Se no deserto Deus sustentou o
povo com um pão passageiro, em Jesus oferece o verdadeiro alimento para a vida
eterna.
O Salmo responsorial
proclama: “Glorifica o Senhor, Jerusalém” (Sl 147). O salmista recorda
que Deus alimenta seu povo com “a flor do trigo” (Sl 147,14), expressão que a
tradição cristã sempre relacionou ao pão eucarístico, alimento espiritual que
fortalece a caminhada dos fiéis.
Na segunda leitura,
São Paulo escreve aos coríntios (1Cor 10,16-17) e nos apresenta uma profunda
catequese sobre a Eucaristia. Diz o apóstolo: “O cálice de bênção que
abençoamos não é comunhão com o Sangue de Cristo? E o pão que partimos não é
comunhão com o Corpo de Cristo?” (1Cor 10,16). A Eucaristia não é um gesto
individual ou apenas devocional; ela nos une a Cristo e nos faz membros de um
mesmo Corpo. “Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor
10,17).
Essa palavra é
importante para nós. Não existe verdadeira comunhão com Cristo sem comunhão com
os irmãos. Quem recebe o Corpo do Senhor é chamado também a viver a caridade, o
perdão e a fraternidade.
No Evangelho de São
João (Jo 6,51-58), ouvimos parte do discurso do Pão da Vida. Jesus afirma
claramente: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá
eternamente” (Jo 6,51). Diante da incompreensão dos judeus, Jesus não volta
atrás nem suaviza suas palavras. Pelo contrário, reafirma: “Minha carne é
verdadeira comida e meu sangue, verdadeira bebida” (Jo 6,55).
Aqui está o centro
da nossa fé eucarística. A Igreja crê na presença real de Jesus na Eucaristia.
Não celebramos um símbolo vazio ou mera recordação, mas o próprio Cristo que se
faz presente sob as espécies do pão e do vinho. Por isso adoramos o Santíssimo
Sacramento e reconhecemos no altar o Senhor vivo e ressuscitado.
Corpus Christi é
justamente a festa dessa presença. A procissão e os tapetes que enfeitam nossas
ruas são sinais públicos da fé do povo de Deus. Levamos Jesus pelas ruas porque
desejamos proclamar que Ele é Senhor das nossas casas, das nossas famílias, da
nossa cidade e da nossa história.
Ao mesmo tempo, a
solenidade nos recorda a importância da Santa Missa e da comunhão recebida com
fé e devoção. Muitas vezes corremos o risco de nos acostumarmos com aquilo que
é extraordinário. A Eucaristia jamais pode tornar-se rotina ou obrigação vazia.
Cada Missa é encontro com Cristo, cada comunhão é alimento para a alma e força
para a caminhada.
Irmãos e irmãs, numa
sociedade marcada por tantas fomes — de paz, de amor, de esperança e de sentido
— Jesus continua a dizer: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). Somente Cristo pode saciar
plenamente o coração humano.
Celebremos,
portanto, esta solenidade com profunda fé e gratidão. Aproximemo-nos da
Eucaristia com reverência e amor, reconhecendo que ali está o maior tesouro da
Igreja. Que o Senhor presente no Santíssimo Sacramento fortaleça nossa fé,
renove nossa esperança e nos faça verdadeiras testemunhas do Evangelho.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
+Anuar
Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá (PR)

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