Ao abrirmos o mês de agosto, mês em que toda a
Igreja no Brasil se volta para a beleza e a responsabilidade das diversas
vocações, a liturgia do XVIII Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de uma
virada decisiva no Evangelho de São
Mateus. Até aqui, no capítulo 13, acompanhamos Jesus ensinando as belíssimas
parábolas do Reino dos Céus. O Reino era apresentado como a semente de
mostarda, o fermento na massa, o tesouro escondido no campo, a pérola de grande
valor. Eram ensinamentos profundos, mas que poderiam correr o risco de
permanecer apenas no campo das ideias se não fossem encarnados.
Ao entrar no capítulo 14, a teoria dá lugar ao chão
duro da vida. Mateus faz uma transição intencional: o Reino de Deus deixa de ser apenas uma palavra pregada e torna-se um
gesto visível. O capítulo 14 começa com uma sombra terrível sobre a vida
de Jesus: a notícia da execução brutal de João Batista, decapitado por ordem de
Herodes. João não era apenas um profeta para Jesus. Era seu parente, seu
precursor, seu amigo e praticamente um irmão de caminhada.
Jesus sente o peso do luto, a dor da perda e a
ameaça concreta da perseguição política. Diante dessa tragédia, a reação de
Jesus é profundamente humana: Ele entra
num barco e busca um lugar deserto para ficar a sós, rezar e chorar. No
entanto, a multidão percebe o seu movimento e o segue a pé pelas margens do
lago. Ao desembarcar, esperando encontrar o silêncio para processar a sua dor,
Jesus se depara com uma multidão faminta, doente e desorientada. O grande teste do Reino: é muito fácil
falar de amor, de fraternidade e de partilha quando tudo vai bem. Mas o que
fazemos quando a vida nos golpeia? O que acontece com a nossa missão quando
estamos cansados, enlutados ou desiludidos?
Se fosse qualquer um de nós, teríamos todo o
direito humano de dizer: "Por
favor, hoje não. Respeitem o meu momento. Eu também tenho os meus
problemas." Mas o Evangelho nos mostra o coração do Mestre: vendo a
multidão, Jesus teve compaixão.
Ele não permite que a sua dor particular o isole do sofrimento do mundo. A
compaixão de Cristo não é um sentimentalismo vago; é a capacidade de colocar a
dor do outro no centro, mesmo quando a própria alma está sangrando. É aqui que
a teoria de Mateus 13 se encarna.
O Reino de Deus não é um conceito abstrato para
debates teológicos: o Reino acontece quando a dor pessoal não vira desculpa para o egoísmo, antes se faz visível
em realidades cuja vulnerabilidade
alheia é ainda maior, mostrando que o Reino se estabelece não quando
estamos aptos ou prontos para darmos grandes shows, fazermos estrondosos
espetáculos, mas sim quando cinco pães
e dois peixes são colocados nas mãos de Deus, com a fé de que mesmo na
imperfeição de nossas limitações, fragilidades e carências, Deus encontra
ocasião para a manifestação plena de sua glória, concretizada no bem viver e na
felicidade de seus filhos queridos.
Ao olhar para a sociedade e para a Igreja do nosso
tempo, essa transição de Mateus 13 para o 14 nos lança desafios urgentes. O
primeiro é o de superar a tentação do
"Cristianismo de Discurso”. Vivemos em uma época saturada de
palavras, frases bonitas nas redes sociais e teorias bem articuladas. No
entanto, o mundo atual está cansado de discursos sobre o amor; ele quer ver o amor em ação. Se o nosso
cristianismo parar nas "parábolas" e não chegar ao "pão
repartido no deserto", tornamo-nos apenas teóricos da fé. Diante de crises
econômicas, da fome que volta a assombrar tantas famílias, da epidemia de
solidão e de problemas de saúde mental, os discípulos do nosso tempo continuam
sugerindo a mesma solução de outrora: "Despede
as multidões para que vão comprar comida". A resposta de Jesus
continua a ressoar com força: "Dai-lhes
vós mesmos de comer." A Igreja não pode terceirizar a sua caridade.
O luto que paralisa
frente à missão que cura é outro grande desafio. Muitos de nós carregamos dores profundas: perdas de
entes queridos, decepções vocacionais, crises financeiras, o cansaço do dia a
dia. A tentação contemporânea é ensimesmar-se. O gesto de Jesus nos ensina que,
surpreendentemente, o caminho mais
rápido para curar as nossas próprias feridas é estender a mão para aliviar as
feridas do nosso irmão.
Neste mês vocacional, ao celebrarmos a Eucaristia,
renovamos a nossa vocação batismal de sermos sinais do Reino. Jesus toma os
pães, abençoa, parte e entrega aos discípulos para que eles façam chegar à
multidão. Ele não faz o milagre sozinho; sem receios, Ele não dispensa as mãos
cansadas e o pouco pão dos que seguem com Ele. Que a celebração deste XVIII
Domingo do Tempo Comum nos ajude a transformar as nossas perdas e limitações em
lugar de encontro, partilha e compaixão autêntica, nos tirando da comodidade do
discurso e nos levando à coragem da atitude, do gesto concreto que, ainda que
pequeno, faz-se grande quando preenchido pelo Amor de Deus. Amém.
+ Anuar
Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR
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